terça-feira, 26 de junho de 2012

All things must pass


(ou “Por que o George Harrison é meu beatle favorito – parte 2”)

Quando ainda estava nos Beatles, George Harrison escreveu muitas, muitas músicas que não foram aproveitadas pela banda. Também, fica até difícil competir com obras no cacife de Hey Jude e Don’t Let me Down – mesmo quando se tem na manga um monte de Here Comes the Sun. Com tanta genialidade escorrendo por todos os poros, algo vai ficar de fora, querendo ou não.

A maior parte das músicas dessa época foi parar no seu primeiro álbum solo, o All Things Must Pass, que, na minha humilde opinião, é, de longe, o melhor trabalho solo de um ex-beatle. E olha que tem muita coisa boa nessa lista. 

O disco triplo, que é um dos meus favoritos da vida, está recheado de músicas incríveis, de uma sensibilidade absurda, como I’d Have You Anytime, Wah-Wah, Isn’t It A Pity e a clássica My Sweet Lord. Até hoje, depois de ouvir essas canções milhões de vezes, ainda não sei dizer qual é a minha favorita, mas sei qual tem um significado muito forte: a faixa título, All Things Must Pass.


Da outra vez que falei do George aqui, falei de mudança, de como isso é importante na vida do ser humano. Agora, vejo como é essencial perceber que as coisas são passageiras e que, muitas vezes, duram muito menos do que a gente espera. Isso pode parecer ruim, mas já parou para pensar que, se as coisas não mudassem, a gente nunca aprenderia nada?

E é disso que o George fala em All Things Must Pass. Nada dura para sempre – nem a alegria e muito menos a tristeza. Nem o tempo bom, nem o tempo ruim. Às vezes, tenho a impressão de que as pessoas têm muita dificuldade para aceitar essa “instabilidade” da vida, e elas se esquecem que a única certeza que a gente tem é a morte. A maioria vê isso como algo ruim, que pode até ser desesperador, mas não vejo graça em ter uma vida toda planejada, sem nenhuma mudança. Sem nenhuma cicatriz, nenhuma dor. 

Porque, por mais que machuque, a gente tem que lembrar que, sim, as coisas vão passar, e a gente tem que fazer o máximo para que isso aconteça. Ou, por mais alegria que traga, a gente tem que saber que não vai durar para sempre – temos que aproveitar mais o momento e deixar o futuro um pouco de lado. De repente, nem era isso que ele estava pensando quando escreveu essa música, mas é isso que ela me fala.

Acho que fiquei tão inconscientemente obcecada por essa música que, um dia, acordei e resolvi que precisava desse lembrete para sempre. Paradoxalmente ao homem que me conforta ao dizer que tudo vai passar, eu queria algo que ficasse permanentemente no meu corpo. Eu precisava dessa mensagem. 

Então, depois de um tempo relativamente longo, arrastei uma grande amiga comigo para um estúdio, onde eu gravaria para sempre essas quatro palavrinhas. Ela se libertou, e eu tatuei meu mantra: tudo vai passar.


Na hora doeu um pouquinho, mas isso também passou rápido. Aí veio uma nova vontade: fazer muitas outras tatuagens. Acho que, depois que você se acostuma com o barulho do motorzinho e vê que está nas mãos de um artista muito talentoso, o medo e o receio também passam. Para mim, foi uma aventura rápida e deliciosa, que espero repetir – além de partir para muitas outras.

* A tatuagem foi feita no Gelly's Tattoo, pelo incrível Rafael Firmino. Recomendadíssimo!

Um comentário:

Ana disse...

melhor tatuagem.
fiquei com inveja.

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...