quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

Given to fly



Desde que o mundo é mundo, o homem sempre quis se apropriar das habilidades de outras espécies. Para correr mais rápido, inventou carros e motores potentes. Para respirar embaixo d’água, fez submarinos e equipamentos malucos. Para desafiar a gravidade, criou aviões e paraquedas. No sábado, eu fiz jus à minha raça e resolvi que era hora de superar meus limites. Eu saltei de paraquedas.

Tudo começou no meu aniversário de 21 anos, quando meu irmão me deu o salto de presente. Já fazia muito tempo que eu queria fazer isso, mas nunca encontrei alguém que me apoiasse, então fui deixando de lado – até esse momento. O primeiro agendamento que fizemos foi para o dia 16 de outubro de 2011, mas foi um fim de semana muito chuvoso. Três meses depois, nossas agendas bateram, o tempo abriu e, finalmente, desenrolamos essa história.

No sábado passado, acordei às seis da manhã com o coração na garganta. Não tinha fome, sono, nada. Desde o primeiro dia marcado para o salto, ouvi histórias de quem já tinha feito, vi milhares de vídeos, li e reli o site do Boituva Paraquedismo zilhões de vezes. Tentei de tudo para ficar mais calma, mas nada adiantou, até eu chegar ao local do salto.

O clima é muito agradável, um misto de ansiedade, nervosismo e alegria. É sensacional ver os aviões sumindo nas nuvens e, de repente, um monte de gente caindo do céu, chegando na área de pouso com um sorriso de orelha a orelha e gritos que pareciam ensaiados.

Meu instrutor, o Rocha, conseguiu me deixar super confortável durante todo o processo, desde o momento de colocar o incômodo equipamento até no apertado teco-teco, dividido com mais 15 pessoas. Foi nesse momento que eu percebi que estava bem calma, sem uma batida cardíaca acelerada.

Saca só o aperto.

Quando o teco-teco saiu do chão, foi o momento de começar a desapegar. Agora não tem mais volta. Em poucos minutos, eu iria saltar de um avião a mais de três mil metros de altura. Da janelinha, o chão começa a sumir, dando lugar a um mar de nuvens e ao céu mais azul que eu já vi na minha vida. A temperatura começa a cair bastante também, dá até para perceber que a boca das pessoas começa a ficar meio roxa. É muito alto. Como meu instrutor disse, nessa hora, a gente fica mais perto de Deus. Esse é o momento de segurar na mão dele e ir embora, porque não tem mais jeito.

Essa hora é MUITO tensa.

A partir do momento que a porta do avião se abre, tudo acontece muito rápido. Dá um medo que eu nunca tinha sentido. Mas é uma sensação boa. Acho que foi só naquele momento que percebi como estávamos a uma altura muito surreal. Fui a segunda a saltar, logo depois do meu irmão. Naquele turbilhão de informações, só mentalizei as instruções – metade dos pés para fora do avião, cabeça para trás, mãos segurando as alças do equipamento, pernas dobradas entre as pernas do instrutor, me divertir e deixar a parte difícil para ele – e fechei os olhos.

- Vamo aê?
Respirei fundo, tentei esquecer que estava pulando de um avião, abri os olhos e gritei. – SIM!
Ele soltou – sim, só precisa disso – e fomos.


Não dá para explicar o que acontece na queda livre, mas vou tentar. Antes de tudo, vale dizer que é totalmente rock’n’roll.  O barulho é muito alto, o vento é muito gelado na parte da frente do corpo, mas o sol arde nas costas. O céu continua muito azul lá onde o mundo faz a curva e as nuvens formam um tapete que parece ser muito fofinho. Nessa hora, eu gritei muito; tive a impressão de que deixei meus pulmões lá em cima. Esqueci completamente que o instrutor estava comigo: foi um momento muito só meu, que eu aproveitei bastante.


Não dá para sair bem nessas fotos, na boa.

De repente, um pequeno tranco, o paraquedas se abre e fura as nuvens, me trazendo de volta à realidade. Por um momento, pensei que ia colocar tudo que tinha no estômago para fora, mas respirei fundo e aproveitei aqueles poucos segundos que eu tinha para voar, com a certeza de que tinha acabado de fazer uma das melhores coisas da minha vida. Ali, eu percebi por que os pássaros cantam tanto: voar deve ser incrível.


O pouso foi super tranquilo. Caí no chão e percebi que meu sorriso estava tão grande quanto do pessoal que eu tinha visto uma hora antes – talvez maior, já que minha boca é gigantesca.

Quando estava no ônibus voltando para São Paulo, ainda estava com a adrenalina a mil, repassando todos os momentos na minha cabeça. É uma insanidade absurda, mas que vale muito à pena.

Agora, só tenho um conselho para vocês: não morram sem saltar de paraquedas. Não deixem a vida passar sem conhecer essa incrível sensação de voar, não há dinheiro no mundo que pague esse momento. Mas, se não tiverem companhia, podem me chamar, porque eu vou com o maior prazer – mas no por do sol, porque já fiquei sabendo que o visual é fenomenal!

7 comentários:

Wagner Pinho disse...

Senti um friozinho na barriga só de ler... Confesso que até deu uma vontadezinha de correr para Boituva agora mesmo...

Não... Já passou...

Carolina Bertolucci disse...

Gente, adorei seu relato.
Morro de vontade de pular, mas o medo é maior por enquanto!

Bia (@beatrisgn) disse...

Vamos comigo?
Eu sempre tive muita vontade mas nunca arranjei companhia. Caraio, eu só conheço gente medrosa, pqp...

littlemarininha disse...

Ai, vc realizou meu sonho, menina! =)
Como assim "não dá pra sair bem nessas fotos"? As fotos ficaram MUITO legais!

Camila disse...

Que SENSACIONAL, Nat! O salto, as fotos, o post... tudo! Deu para sentir um pouquinho do que vc sentiu no dia!

Letícia disse...

Nossa, só de ler eu fiquei com as mãos suando de medo. Acredito totalmente na sensação de liberdade que vc deve sentir depois, mas taí algo que eu não pretendo fazer! :S

Larissa Bohnenberger disse...

Naty, só uma palavrinha pra você: IN-VE-JA!!!!

Ahhhhh, como eu quero, quero muito! Juro que não morro sem saber o que é isso! Por mais difícil que seja descrever algo assim, eu quase consegui sentir enquanto lia.

Bjs, Lari!

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