quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

Santo


Tem dias na sua vida que você nunca vai esquecer; que vai contar para os seus filhos. O primeiro beijo, a primeira vez, o primeiro namorado. O primeiro fora, o primeiro porre. A data de aniversário das pessoas amadas, o dia do seu casamento. Qualquer uma dos 7 bilhões de habitantes do Planeta Terra vai ter dias muito especiais para compartilhar. 

Falando especificamente do meu país, da minha cultura, tem um dia que eu nunca vou esquecer: o dia em que eu descobri meu time do coração.

Você pode odiar futebol com todas as suas forças, mas tem que admitir que isso está enraizado na alma de todo brasileiro. O bebê ainda está na barriga da mãe e a família inteira está brigando para decidir qual vai ser o time da criança. Tem gente que tatua o manto sagrado, troca de nome pelo ídolo, chora e se emociona junto com os onze jogadores em campo. Já vi noiva abrindo mão da tão sonhada Marcha Nupcial para entrar na igreja ao som do hino de seu time, ao passo que o noivo colocou o emblema do arquirrival – seu time amado – nas solas dos sapatos para todos os convidados verem, no momento em que o casal se ajoelha diante do padre, com quem a escolhida disputaria seu amor.

Na minha casa, nunca houve muito fanatismo por futebol, mas as coisas sempre foram muito bem divididas. Meu pai e meu irmão são palmeirenses, minha mãe é corintiana. Como a maioria vence, todos decidiram que eu seria palmeirense. Isso nunca fez nenhuma diferença na minha vida, até o dia 16 de junho de 1999.

Eu tinha oito anos e lembro perfeitamente da cena: na casa onde eu morava, eu estava sentada no sofá azul clarinho, em frente à TV, enquanto meus pais e mais um casal – não lembro se eram meus tios ou dois amigos dos meus pais – jogavam baralho na mesa redonda de madeira acastanhada, com a manta azul royal e vermelha, com uma queimadura de ferro de passar feita por mim, que conheço tão bem até hoje. Na televisão, acontecia a cena abaixo.


Eu não lembro muito desse jogo. Só lembro que fiquei muito ansiosa e não conseguia desgrudar os olhos da televisão. Até aquele dia, eu não sabia o que era amar um time de futebol. Até aquele momento, eu não era parte da torcida que canta e vibra. Até aquele momento, eu não entendia nada disso. Mas tudo isso acabou naquele momento, quando eu descobri que meu pai e meu irmão tinham chutado certo qual seria meu time. Foi naquele momento que eu descobri que nasci para ser Palmeiras. Doze anos se passaram e, apesar de tudo que aconteceu, não olho para trás em momento nenhum.

Por isso que hoje faço esse texto. No dia da aposentadoria de São Marcos. Se tem uma pessoa a quem eu devo meus últimos doze anos alviverdes – e todos os próximos –, é a esse cara. Foi ele quem proporcionou minha primeira experiência palestrina. É um homem que honrou a camisa que vestiu por vinte anos, em tempos de vacas gordas e magras. É um jogador que merece respeito não apenas da torcida do time que serviu, mas de torcedores e jogadores de todo o Brasil. É uma pessoa verdadeira e cheia de caráter, coisa difícil de se ver hoje em dia no futebol.

Ao São Marcos, meus mais profundos agradecimentos por tudo que fez pela Sociedade Esportiva Palmeiras. Obrigada por tantos momentos de alegria e por honrar espetacularmente o histórico da academia, mostrando qual é a defesa que ninguém passa. É por sua causa que vou poder contar aos meus filhos que “não vi Oberdan, não vi Leão, mas vi São Marcos”.

Aos palestrinos e torcedores de outros times que também deram adeus à carreira do Marcão, fico muito feliz de ver que não sou só eu que vejo o reconhecimento que esse senhor goleiro merece. Aos outros torcedores, que fizeram piadas imbecis sobre a aposentadoria do Marcos, meus verdadeiros lamentos. Se vocês não conseguem enxergar a importância desse jogador para o futebol brasileiro, não sei o que fazer. Digo isso porque, sim, São Marcos é Palestrino, mas faz bastante tempo que ele também é Brasil.


Hoje, muito me orgulha saber que meu coração pertence a um time com uma história tão fascinante, que foi Brasil tantas vezes e que ensinou muita gente a jogar – e amar – bola. A fase não é boa, mas eu e mais uma nação palmeirense seguirá acreditando na mudança.

Porque, além do Divino, a gente também tem um Santo.

Saudações alviverdes.

5 comentários:

Tyler Bazz disse...

Santo.

Vai fazer falta no campo. Mas nunca vai sair da história.

leila disse...

Sou corinthiana desde que me dei conta de que torcer pro Bahia ia ser uma tarefa muito árdua e não pretendo deixar de ser tão cedo. Mas sabe que o Marcos eu sempre admirei?!
Acho que é porque eu sempre vi nele essa pessoa íntegra, que estava nesse mundo escroto do futebol, com dinheiro e poder circulando a torto e a direito, pelo simples amor à bola, ao esporte, ao time que defendia.
Meu pai é palmeirense e toda vez que eu acabava assistindo a algum jogo com ele, sempre me chamou a atenção pelo o que o Marcos falava ou no intervalo ou após o jogo. Falava bem, sempre chamando a atenção pros erros de seu próprio time, fazia umas observações construtivas, do tipo de coisa que não se vê em todo jogo.
Acho que tipos como o Marcos são ídolos que todo time tem ter, pra mostrar que esse tal de futebol é muito mais do que 22 atrás de uma bola, títulos, estádios e salários milionários.
Quanto aos infelizes que fazem piadinhas, bom depois que vi uma montagem zuando com a homenagem ao Sócrates eu acredito em tudo...

Ah, nem precisa falar que eu sou fã dos seus textos e o de sempre, né?

Wagner Pinho disse...

O Marcão é um patrimônio do futebol e, em muitas oportunidades, demonstrou que futebol não é um esporte jogado apenas com habilidade, mas com paixão e uma dose extra (e necessária) de vergonha na cara...
Sensacional, Na.

Ana Lins disse...

Marcão foi estrela em time brasileiro antes de 'não ir pra Europa' ser legal. Watch n' learn.

Alex Rolim disse...

A imagem que não sai da minha cabeça quando falam do Marcão é ele correndo na minha direção (sei que não por minha causa) após o cara chutar pra fora o último pênalti na final da Libertadores 99. Inesquecível.

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