segunda-feira, 5 de setembro de 2011

Eu plantei um pé de feijão


Acredito que 2011 está sendo o ano mais longo da minha vida. Cada dia que passa parece pior que o anterior. O dinheiro – que dinheiro? – é cada vez mais curto, mas tem que dar um jeito, afinal, ninguém vai pagar minhas contas. A vida não fica mais simples, o trabalho não fica mais fácil, a faculdade não dá mias trégua, as pessoas não dão mais esperança.

Nas últimas semanas, não tive hora para chegar em casa, e não por um bom motivo. Eu amo o que eu faço, mas cansa. Mais cedo ou mais tarde, vai saturar e, por várias razões, estou adiando, porque é o que preciso fazer agora. E, justamente no único semestre que precisava de completa paz e sossego para fazer um TCC legal, é o único que parece que tudo vai desmoronar e eu não tenho nenhum controle sobre isso. Eu tento me adaptar, mas quem disse que é fácil? É verdade, ninguém nunca disse isso, acho que criei esse universo na minha cabeça mesmo.

No resto da vida, também não está muito diferente. Dá para contar em uma mão quantas vezes fui ao cinema, ao teatro, quantos livros eu consegui terminar. Quantas vezes tive que me controlar para não ter um acesso nervoso desnecessário. Quantas vezes peguei o telefone para agendar sessões de terapia, mas lembrei que o dinheiro – ah, sempre ele – está curtíssimo e vou ter que adiar isso para ano que vem. Quantos chocolates pesaram na consciência – e no rosto também – na manhã seguinte. Quantas noites mal dormidas por causa da certeza da carcada no dia seguinte na faculdade. Quantos textos para esse blog eu deixei pelas metades porque não conseguia escrever sem pensar em citações com recuo de 4 centímetros. 

Quantas vezes tive que desmarcar compromissos com meus amigos porque o domingo tinha que render. Quantas pessoas me decepcionaram de verdade, de uma maneira que eu não esperava. Quantas pessoas foram verdadeiros filhos da puta e quantas vezes eu me perguntei o que diabos eu fiz para merecer uma cachorrada dessas, sem sucesso. Quantas pessoas acabaram com um pouco da minha ingenuidade, da minha vontade de acreditar nos outros. Para não ser injusta, também foram muitas chances de me apaixonar eu joguei fora. Muitas pessoas bacanas eu conheci, mas simplesmente não consegui me relacionar, porque sempre tinha um motivo: parece cada vez mais difícil, cansativo, chato e repetitivo – e aí eu penso que preciso mesmo de sessões de terapia e... não tenho dinheiro, nem tempo.

Não dá nem para contar quantas vezes eu desejei que meu dia tivesse umas 72 horas, talvez eu desse conta de tudo. Ou então que, ao acordar, já fosse 2012. Pelo menos, o mundo ia acabar. Ou a chance de me teletransportar para outra época, onde uma garota de 20 anos seria tratada como uma garota de 20 anos. Ou eu deveria ser menos madura, quem sabe as pessoas me veriam como alguém que só tem 20 anos; que não sabe quase nada da vida, que também quer aprender. É praticamente impossível medir a vontade que tive de mandar tudo à merda e simplesmente ir embora sozinha, conhecer toda a América do Sul com uma mochila nas costas. Por mais que minha mão coçasse, alguma voz lógica gritava no meu cérebro que não era para fazer isso, não agora. E ainda tem gente que fala que sou muito emocional.

Então, eu paro para ler tudo isso que escrevi e lembro que, em todo o mundo, tem gente morrendo de fome, com doenças incuráveis, pais horríveis que abusam de seus filhos, filhos nojentos que deixam seus pais idosos às moscas, monstros que maltratam animais a troco de nada, pessoas sendo escravizadas para costurar a blusa que eu uso nos fins de semana e só consigo pensar em como eu posso ser tão ingrata e egoísta a ponto de achar que meus problemas são mais importantes que tudo isso.

Aí, eu plantei um pé de feijão. Dezesseis anos depois dessa aulinha no pré, eu plantei um feijão. Sem nenhuma preocupação ou expectativa.

Não espero que aquele pezinho de feijão vá resolver todos meus problemas. É muita pressão para uma sementinha, não teria essa coragem. Mas é muito bom ver que, com um pouco de água, sol e amor, ele está crescendo saudável, livre de qualquer problema do mundo. Não sei se ele dará alguma vagenzinha, mas estou fazendo meu melhor para garantir que sim. Não sei se ele vai crescer tanto que vou ter que pensar em comprar um lote de terra só para deixá-lo mais confortável, mas é tão gostoso imaginar isso acontecendo – mesmo não sendo possível.

Eu plantei esse pé de feijão por um acaso, só porque ele apareceu na minha vida. Assim, do nada mesmo. Não imaginava que fosse apreciar tanto seu desenvolvimento e que fosse significar tanto para mim. Mas, como minha mãe sempre diz, “as melhores coisas da vida acontecem por acaso”.

E, se ele não viver por muito tempo, não tem problema. Vou sempre lembrar que, nesse tempo, eu vi um pé de feijão crescendo na minha janela no trabalho, sem preocupação nenhuma. Eu sorri cada vez que suas folhas ficavam maiores e mais vistosas. Eu vi todo mundo no escritório vibrando com as raízes que ficavam mais fortes, mesmo parecendo ser a coisa mais besta do mundo.

Por alguns momentos, eu deixei todos os problemas do mundo de lado, só para ver aquele feijãozinho crescendo. Eu reservei alguns momentos todos os dias da semana só para aproveitar o colorido do meu feijãozinho na imensidão cinza de São Paulo. Por alguns instantes, depois de muito tempo, eu pude me orgulhar de algo tão simples e tão natural.

Por algum tempo, eu voltei a ser criança. E não me arrependo nem um pouco disso.


 

4 comentários:

Rubia Dalla Pria disse...

Nati,
guenta firme que TCC passa e depois vc fica na saudade!
Acho que vou plantar um pé de feijao também, é a única lembranca que eu tenho de ver o tempo passando rápido e eu ficar feliz por isso.

Beijos,

Marina disse...

"não conseguia escrever sem pensar em citações com recuo de 4 centímetros"

Gente, eu gargalhei aqui. Só quem está fazendo TCC sabe o quanto isso não deixa a gente relaxar. Também amo o que eu faço, mas às vezes a gente precisa de alguma recompensa maior que somente o amor pelo que faz.

Beijos e força.

Larissa Bohnenberger disse...

Gente, tirando alguns detalhes eu podia muito bem ter escrito este texto. Vamos combinar que 2011 tá cruel, né? Vou tentar plantar um feijãozinho também, ver se consigo me distrair dos meus problemas.

Bjs!!!

Larissa Bohnenberger disse...

Sumiu? Tá corrida a vida, né?

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