domingo, 31 de julho de 2011

Lembranças mágicas

Era uma vez uma geração que não gostava de ler. Tinha nascido em meio a videogames, desenhos animados e programas sem graça de televisão. Mais tarde, os computadores apareceriam e matariam de vez qualquer vontade de ler, que já era tão pequena e frágil. O mundo já não tinha mais nenhuma esperança de que aquela geração seria responsável por fazer desse um lugar melhor.

Tudo parecia perdido até que, sem muitas pretensões, uma escritora inglesa resolveu tirar uma de suas ideias do fundo da gaveta. Percebeu que já era hora de oferecer um pouco de magia para o mundo, nem que só algumas crianças pudessem conhecer seu trabalho. Mal sabia ela que aquele bruxinho de olhos verdes, morador do armário embaixo da escada da Rua dos Alfeneiros número 4, conquistaria tantas pessoas, de tantas idades, em tantos países. No começo, ela também não esperava que aquela história virasse filme, e que todas as crianças que cresceram imaginando aquele universo tivessem a oportunidade de acompanhá-lo nas telonas. 

E foram mais de dez anos muito felizes. Essa geração aprendeu a devorar livros, muitos outros além dos que contavam a história que se passava em uma Escola de Magia e Bruxaria. Viram três personagens crescerem com eles, passarem pelas mesmas situações embaraçosas que a adolescência traz e, mais importante, aprenderam a apreciar e admirar tudo aquilo que a capacidade de imaginar podia fazer por eles. De repente, aquelas crianças foram deixando de lado os videogames e os joguinhos de computador para se dedicarem avidamente aos prazeres que descobriram nas páginas dos livros. Ter acesso a tanta magia era surpreendente demais.

Na verdade, era muito surreal para todo mundo – para os fãs, para quem não conhecia, para quem amava e para quem odiava. O mundo não esperava tanto de uma simples história de magia.

Nem eu. Não esqueço o dia em que a Gabi, que era a vizinha da frente, me emprestou Harry Potter e a Pedra Filosofal. Eu tinha de nove para dez anos e a única coisa que eu lia sem ser forçada eram gibis da Turma da Mônica. E eu li aquele livro incontáveis vezes até sair a Câmara Secreta, que está com a capa gasta de tanto que li e reli. E foi a mesma coisa com os outros, ano após ano. E foi a mesma coisa com os filmes, que já perdi as contas de tanto que assisti.

Semana passada, assisti Harry Potter e as Relíquias da Morte parte 2, já com a certeza de que seria difícil dizer adeus. Desde meus dez anos, essa série representa muito mais do que dar espaço à imaginação e acompanhar os livros e filmes. Mergulhei de cabeça nisso, me apaixonei de verdade pelo universo, pelos personagens, pela forma como a história foi amadurecendo junto comigo – e todos os outros fãs, claro. Acho que, até meus 15 anos, eu tinha esperança que minha carta de Hogwarts chegaria, mais cedo ou mais tarde. 

Com o passar do tempo, fui conhecendo mais gente que também era amante da história e que deixava tudo ainda mais mágico. Acompanhei inúmeras fanfics, e acho que foi a partir dessas histórias que percebi que escrever também era legal, talvez até mais que ler. Brinquei de RPG, criei personagens para mim, inventei histórias como se fosse a Rita Skeeter, fiz amizades que pensei que nunca acabariam, mas já não são mais as mesmas por inúmeros motivos. Foram por essas e tantas outras razões que adiei minha ida ao cinema, porque sabia que ia ser doloroso fechar um ciclo de dez anos da minha vida.

Tudo terminou, mas eu não queria dizer adeus ao universo que foi minha segunda casa por tanto tempo, aos personagens que eu conhecia tão bem que pareciam meus amigos mais próximos, à família de ruivos mais apaixonante que poderia existir, à escola que eu gostaria de ter frequentado, às aventuras que eu faria questão de participar, a um vilão tão assustador, à paixãozinha adolescente tão similar às minhas, aos animais incríveis que eu gostaria de ter no meu quintal, às comidas e bebidas apetitosas que nunca acabavam, aos feitiços tão difíceis de dizer, às aulas mais legais que uma escola poderia ter. Ver tudo acabar e dizer adeus não é fácil.

Então, preferi não dizer adeus, e sim guardar todas essas memórias com muito carinho em um lugar da minha memória que não será ocupada por nada além delas. E hoje, dia 31 de julho, aniversário de J.K Rowling e de seu principal personagem, nada parece mais correto do que agradecer essa mulher por permitir que minha geração e eu tivéssemos algo em que acreditar para sempre: que nossa imaginação vai mais longe que pensamos. A gente só precisava de um empurrãozinho.

Obrigada (e você poderia ter escrito mais uns quinze livros, ok).

"Hogwarts will always be there to welcome you home".

5 comentários:

rubia pria disse...

Seu post era para ser feliz? Eu fico triste quando leio sobre o fim de HP. Me lembro muito bem de quando ganhei Harry Potter e a Pedra Filosofal no meu aniversário de 13 anos. Desde então, me converti numa fãnática da série e nunca mais parei de viver disso. Mas agora acabou, né? =(
Todos nós ficamos órfãos do que um dia foi alvo de discussões, choros, risadas e anseios.

Bora se fixar em Pottermore e esperar que desse mato saia coelho. rsrs

Guilherme Matias disse...

Belo post, principalmente a parte riscada... por que só 7, JK?

littlemarininha disse...

Sabe, eu tinha uma pasta onde colocava todas as reportagens que encontrava sobre o Harry. Comprava revistas que falavam a respeito, fazia varinhas de cabos de vassoura, jogava quadribol na varanda de casa...eu fui a Hogwarts. Fui! Em todos os livros e em todas as vezes que li cada um dos livros. Infelizmente não senti a mesma vibe nos filmes. Eu já lia bastante antes do Harry (era uma pessoa meio estranha pra nossa geração, digamos assim), e SEMPRE tive ciúmes das histórias. Tirando talvez o Senhor dos Anéis, não posso dizer que gostei de verdade de nenhuma adaptação de livro pra cinema, então o Mundo Harry meio que acabou pra mim no fim do livro (e me rendeu uma noite de choro incontrolável, confesso). Bom demais seu texto, Nat! Acho que quem viveu essa história vai ter em Hogwarts sempre - sempre mesmo! - um refúgio, um cantinho pra chamar de seu.

Vanessa Finizio disse...

Eu amo você.
Tô precisando te abraçar, vou tentar juntar dinheiro pra ir te ver...

Ribeiro de Castro disse...

Olha, sou um pouco mais velho. :D Conheci Harry Potter já na faculdade. Meu irmão caçula, 17 anos mais novo que eu, estava lendo um certo livrinho (Hary Potter e a Pedra Filosofal) e quis ver o que ele estava lendo (ele nunca gostou muito de ler). Apaixonei-me perdidamente!!!! E, qdo o último livro saiu o li ávidamente. Chorei em muitos e muitos trechos da história, e qdo reli, chorei novamente. Fiquei por anos com a saudade de amigos, muito queridos, mas que tinham ido para um país distante. E, qdo li, a tradução de contos de Beeble, o Bardo, fique feliz por ter "noticias" dos amigos queridos. (Veja que escrevi TRADUÇÃO, mas foi sem perceber. Para mim, foi mesmo Hermione que traduziu o livro das runas antigas. :D). Ainda hoje, e talvez por toda a vida, terei saudades dos amigos queridos que partiram. Obrigado por me lembrar disso. Doravante visitarei sempre seu blog. Abraços. Nelimar Ribeiro

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