quarta-feira, 18 de maio de 2011

Pantone

Olhou seu reflexo na janela do ônibus. Por baixo da jaqueta jeans, o vestido verde musgo combinava, de uma maneira estranhamente agradável aos olhos, com a meia-calça lilás e as luvas azul royal. A pequena bolsa, com a alça atravessada em seu peito, era alaranjada, assim como os detalhes de seus tênis. Gostou da composição. Observou com um pouco mais de atenção e percebeu que nada que usava naquele modelito remetia à sobriedade exigida por seu trabalho, por sua família, pelo mundo. Nem seus fones de ouvido, amarelos, sempre conectados ao iPod, verde limão. 


Ao constatar esse fato, lembrou-se de seu guarda-roupa e percebeu que eram poucas as peças em tons neutros, provavelmente presentes da mãe, que tanto implicava com o excesso de cor que a filha desfilava todos os dias. Depois de conferir as roupas mentalmente, partiu para o resto da casa: os quadros, as cortinas, os móveis e até os utensílios da cozinha não davam espaço para cores usuais. Até ficou meio assustada por nunca ter tido uma dor de cabeça no meio desse turbilhão de cores. Já devia ter se acostumado. E ela gostava disso.

Sim, era completamente apaixonada por cores. Não lembrava de onde tinha surgido esse amor, mas o importante era que ele existia. Vai ver era por isso que gostava tanto de grafite. Não suportava andar pelas ruas cinzentas da sua cidade; parecia que todas aquelas nuvens escuras tiravam sua vontade de viver. Gostava até do branco e do preto, mas não via razão para usá-las quando se tem um mundo de opções tão mais felizes para aproveitar.

Sempre dava um jeito de fazer tantas cores diferentes combinarem e não cansar seus olhos e os olhos daqueles ao seu redor. Sabia que era falta de coerência usar azul, verde, laranja ao mesmo tempo, mas eram raros os olhares de desaprovação. De repente, ela era uma abençoada pelos deuses da moda e nem sabia.

Odiava todos aqueles que a comparavam com os adolescentes de uma geração posterior a sua, que usavam roupas coloridas porque “estava na moda”. Sentia repulsa dos que falavam e dos adolescentes. Eles nunca tiveram esse direito, porque nunca entenderam a importância que as cores tinham para ela. Era um amor maior que qualquer moda.

Gostava de todas as cores e usava todas elas, sem se cansar. Mas, nos últimos tempos, preferia umas mais que outras. Ultimamente, se sentia melhor com o amarelo e com o rosa, até com o estranho prateado. Não importava se fosse necessário misturar quarenta tons diferentes, desde que conseguisse esconder um buraco transparente que carregava com ela a todo o momento. Não funcionava, mas precisava dar um jeito de tampar aquela fenda que outrora abrigara o vermelho, uma de suas cores favoritas. 

Era uma cor que a deixava animada, feliz, esperançosa. E essa cor só ficou mais forte depois que conheceu alguém que a entendia tão bem e que potencializava todos esses efeitos. Nunca imaginou que podia crescer dentro dela um vermelho tão forte e vivo como o que ele a fazia sentir. Para ela, ele também era vermelho por dentro, o que os fazia tão especiais.

Com o passar do tempo, o que ele sempre deixou transparecer como vermelho era, na verdade, bege. E isso a deixava triste. Feia. Decepcionada. E, toda a neutralidade que o bege dele irradiava, transformou o vermelho dela em cinza, a pior das cores. Ela, que nunca quis ser cinza, foi por muitos anos. Por causa de um bege em pele de vermelho.

Era desgastante ser cinza. Era triste, chato e, definitivamente, não era a cara dela. Mas, depois de ver tanto bege, não sabia como voltar a ser o que era antes. Tentou misturar todas suas tintas, mas nada dava certo. Isso a cansava e a fazia perder a esperança. Queria voltar a como era antes; não aguentava mais ver o mundo de uma perspectiva cinza. Já era hora de ter cor de novo.

A solução foi apagar o cinza e torcer para que o transparente funcionasse. Não era o que ela queria, mas não via saída melhor. Qual não foi seu alívio ao perceber que estava no caminho certo. Sabia que iria demorar mas, de passo em passo, chegaria ao vermelho de novo. Não ia ser fácil, nem rápido ou sem dor, mas sabia que chegaria lá.

Naquele momento, ela tampava o buraco transparente com todas as cores possíveis, mas isso não a incomodava mais. Aquilo a fazia entender que o vermelho era o complemento errado; o bege então, nem se fala. Usar tantas cores fazia a esperança voltar. Porque sabia que, algum dia, encontraria alguém que combinasse com seu vermelho. Enquanto isso, usava todas as cores. E agradecia todos os dias por não ser mais cinza.

6 comentários:

Hally disse...

De longe, esse é o melhor post seu na minha opinião. Cheguei a ficar triste por ser tão preto. =(

Parabéns guria.

Van disse...

Tenho muito orgulho de você, tanto que o meu peito infla.

Nesses anos eu te vi passar por muitas fases, e te vi ir da euforia, passar pelas batidas de cabeça, pelas desistências e chegar nesse amadurecimento que está em voga agora. Por incrível que pareça um mundo de cores pode representar paz, e é isso que eu vejo em você. Paz, amadurecimento, serenidade... Isso me faz sorrir e me sentir um pouco mais perto de você, mesmo tão longe.

Te amo, te amo, te amo!

littlemarininha disse...

Dá vontade de conhecer alguém tão colorido (por dentro) no meio dessa monocromaticidade toda do mundo.
Mesmo!
Adorei o texto!

Anônimo disse...

"Com o passar do tempo, o que ele sempre deixou transparecer como vermelho era, na verdade, bege."
Lindo texto.

Alters Érica. disse...

Adorei!!! Não apenas pela identificação, mas pelo formato escolhido para escrever...

Anônimo disse...

Saudades Máximo!

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