quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

Item de série

Cada vez mais penso em como o mundo seria melhor se, antes das pessoas chegarem a ele, houvesse uma pré-seleção. Igual carro. Carro tem alguns itens de série. O ser humano também deveria ter itens de série, para um melhor convívio em sociedade.

Para esse mundo utópico e perfeito existir, teria que ter uma pré-seleção bem da infeliz. E nem estou falando de coisas que eu gosto (porque, no meu mundo perfeito, uma das exigências seria ouvir música boa), senão caímos naquele velho clichê – que eu bem concordo – de que “o mundo seria sem graça se todo mundo fosse igual”. Algumas coisas todo mundo tem que ter. Ou seria excelente se tivessem, como respeito e bom senso.

Mas, na minha pré-seleção, nos meus itens de série, não pode faltar a educação. 

Tudo começaria na disputa dos espermatozoides por seu lugar ao sol. Sim, só os mais fortes chegam lá e, para mim, o mais forte é o pimpolhinho que será bem educado. E a seleção ia ser rigorosíssima: ao chegarem ao útero, ele identificaria todos os mal-educados e os mandaria de volta para casa sem dó nem piedade. “Você vai ser bem educado? Não adianta mentir para mim, você sabe que eu sei de tudo. Não vai, né? Pode voltar pelo mesmo caminho de onde veio, tente na próxima, se você resolver ser um espermatozoide melhor”.

Tá, viajei e educação não é característica genética (não? Me corrijam se eu estiver errada), que é algo que a pessoa aprende em casa, mas o que custa ser educado com os outros? 

Eu bem sei do que estou falando, já que sempre estou prontamente preparada para reclamar de alguma coisa. Mas isso não quer dizer que todo mundo tenha que saber das minhas infelicidades efêmeras e babacas, do mesmo modo que um dia ruim não me permite agir como uma estúpida com os outros.

Falei, falei, falei só para chegar a um ponto: eu não acho que esteja errada. As pessoas já enfrentam muitas barreiras nessa vida sem a falta de educação dos outros; ninguém precisa disso para piorar a situação. Para ilustrar a necessidade crescente do item de série “educação” na humanidade, dois fatos presenciados por essa que vos fala, no mesmo dia e mesmo lugar.

Saindo do trabalho, subi em um ônibus lotado – e o errado, diga-se de passagem – para ir à faculdade. Como estava comendo, sentei no lugar reservado só até terminar meu lanche (é bom eu destacar duas coisas aqui: eu sou muito desastrada. Comer em pé no ônibus em movimento iria resultar em caca mais cedo ou mais tarde; e eu nunca sento no banquinho amarelo porque ele é reservado e também porque sempre que eu sento lá, um velhinho sobe no ônibus um ponto depois. Só sentei porque estava comendo mesmo). 

Estava ouvindo minha musiquinha tranquilamente quando ouço uma senhora gritar a plenos pulmões para o motorista, usando todas as palavras de baixo calão conhecidas na vasta língua portuguesa. Ela reclamava que o motorista tinha parado fora do ponto para uma mulher – que estava subindo naquele instante – mas não fez isso para outra pessoa.

Essa história tem dois erros crassos. A primeira é que o motorista não tinha parado fora do ponto, o que tira qualquer razão que a senhora alto-falante reclamante pudesse ter. A outra é a bendita educação. O cara está lá, fazendo seu trabalho decentemente e é obrigado a ouvir esse tipo de coisa. Não seria certo em nenhuma situação, em nenhuma profissão. 

Pessoalmente, tenho grande respeito por qualquer profissão, mas cobradores e motoristas de ônibus, condutores de metrô e garis merecem muito mais do que ganham. Pense bem: designers, jornalistas, roteiristas e vários outros profissionais podem fazer greve e chamar muita atenção, mas a cidade só para de verdade quando esses caras resolvem protestar – junto com a classe médica, claro. 

Talvez por conta disso, fiquei revoltada com o comportamento da mulher. Nada lhe dava o direito de fazer isso, até porque o motorista estava fazendo tudo certo. Ela deve ter tido um dia ruim e achado que, só por causa disso, poderia falar as asneiras que falou. E, como merecido, ela foi repreendida por muitas pessoas muito mais educadas que ela naquele ônibus, e eu também tive que dar meu pitaco.

A outra história é mais comum, mas mesmo assim me impressiona. Depois do auê da senhora maluca e mal-humorada, uma senhorinha de uns 70 anos entrou no ônibus e eu cedi meu lugar prontamente. Ela ficou tão feliz e me agradeceu tanto que eu não sabia o que dizer. Acho que as pessoas respeitam muito menos essa lei do que eu imaginava, senão ela não teria ficado tão impressionada.

As pessoas sempre querem mudar o mundo, fazendo ações que consomem trilhões de dinheiros e de energia, mas parece que nunca param para pensar que tudo fica mais fácil se começar com os gestos mais simples que existem, como um “bom dia” para o porteiro ou jogar sua bituca de cigarro em uma lixeira.

Se todo mundo fosse assim, daria até para adicionar outros itens de série.

Mais fácil que parece.

3 comentários:

Charlie disse...

Acho que um controle de volume também seria bem útil, mas sem a educação este item seria tão inócuo quanto os fones de ouvidos de celulares... Existe, mas o mal-educado não usa...

Nih_x disse...

Ah, que bom seria... :)

Cami Pires disse...

É gatona, hj rolou algo parecido. Deixamos um senhorzinho passar na nossa frente lá no banco e ele ficou muito muito agradecido. Gentileza é artigo de luxo!

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