quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

Manjericão

Ele teve um longo e exaustivo dia de trabalho no escritório. Tudo que queria era tomar um banho quente quando chegasse em casa. Mas, assim que abriu a porta, lembrou que tinha que fazer compras. Seu cachorro, que latia desesperadamente para a tigela vazia de ração, não o deixava esquecer. “Inferno de dia”, era só o que conseguia pensar naquele instante.

Realmente, o dia não tinha sido bom. Tudo que queria era enfiar a cabeça no travesseiro e gritar até sentir sono. Queria dormir por uns três dias seguidos. Mas precisava ir ao mercado. Parou de discutir sozinho, pegou a lista de compras que estava na porta da geladeira e foi.

“Pelo menos é perto”, resmungou depois de andar três quarteirões. Chegou na loja, pegou um carrinho e checou a lista de compras: sabonete, detergente, pão de forma, queijo, presunto, maionese, água, cerveja, Coca-Cola e ração. Lembrou que também tinha que comprar comida congelada para levar de almoço na próxima semana.

Desde quando foi morar sozinho, só mexia no fogão quando os pais iam visitá-lo, assim não preocupava a mãe e o seu colesterol alto não virava a discussão do jantar. Gostava bastante de cozinhar e até que não se saía mal, mas sempre encontrava um motivo para não fazê-lo – um restaurante novo que abriu perto de casa, falta de criatividade, falta de tempo. Além disso, achava que era muito triste preparar um banquete se fosse comer sozinho. Para ele, comida sempre foi sinônimo de casa cheia, de barulho.

Foi quando procurava pelos frios que reparou na pequena prateleira no fim do corredor, recheada com talos de manjericão bem verdinhos. Pegou um deles e inspirou seu aroma profundamente. Tinha cheiro de infância, como não sentia há muito tempo.

Em dois segundos, cenas da sua vida começaram a passar em sua cabeça como um filme. Os sábados em família, regados a muita comida e música; a correria dele e dos primos pelo condomínio em que morava, fugindo do síndico, depois de quebrar a janela da administração; o aniversário em que ganhou a bicicleta vermelha dos tios, com a qual tomou tantos tombos; a vitrola do pai e sua coleção imensa de vinis, que ocupava metade da sala de estar do pequeno apartamento; a alegria quando a mãe o deixou ir sozinho à escola, na quarta série; a raiva quando a mãe o obrigou a ir até a nova escola, a do ginásio, com a menina que morava no apartamento do andar de cima do seu, que ele sempre odiou, mas em quem deu o primeiro beijo, a primeira volta de bicicleta acompanhado, sem querer se atirar pelas ladeiras do bairro, e o primeiro passeio de mãos dadas, bem apertadas. Até hoje, sorria só de pensar nela. O primeiro amor da vida dele, talvez o único, ainda não sabia muito bem o que era aquele sentimento.

Mudou de planos. Jogou a lista de compras fora e colocou o manjericão no carrinho. Por segurança, pegou mais um maço. Pegou um pedaço de parmesão, algumas nozes, azeite, alho e um pacote de espaguete. Escolheu um bom vinho tinto, pagou e foi para casa.


Fez o macarrão ao pesto mais gostoso da sua vida. Jantou sozinho, mas não foi nada triste. Naquela noite, a lembrança da infância mais feliz que podia imaginar o fez a melhor companhia que tinha tido em muito tempo.

*****

Terminou mais uma taça de vinho, arrumou a cozinha, tomou banho e foi dormir com o ânimo renovado. Já estava até sonhando quando ouviu o latido do cachorro. Acordou assustado, pôs uma camiseta e os chinelos. Saiu correndo até chegar ao mercado – que, graças a Deus, era 24 horas.

Tinha esquecido de comprar a ração.

9 comentários:

Tyler Bazz disse...

Homem é foda mesmo, né. Só lembrar de mulher, esquece até de dar comida pro cachorro.. tsc tsc tsc.

Dragus disse...

Coitado do cachorro.

Eu mordia ele.

lilianambar disse...

Pobre cachorro... ficou sem comer por conta de uma garrafa de vinho e um manjeiricão cheiroso...rs Adorei o texto!

Marina disse...

Eu lembrei da ração quando ele foi embora do supermercado só com o manjericão e os ingredientes da comida. Fiquei pensando "e o cachorro, coitado??". Pensei que acabaria sem falar nele até ler o epílogo. Haha!

Gosto do cheiro de alecrim. Me lembra as comidas mais gostosas que a minha tia fazia.

.a que congemina disse...

Tenho muito dessas coisas. Cheiro é algo que gruda na memória de uma maneira absurda!

E nem acho triste fazer comida só para si. Talvez por ter sido essa a minha rotina durante alguns anos, nunca deixei [ou, pelo menos, não que eu me lemre] de preparar nada porque estava sozinha. Fizesse isso, não jantaria nunca.


Gostei taanto do texto!
=D

Otavio Oliveira disse...

haha ficou mto bom, nat :D quase senti o cheiro da infância aqui.

Larissa Bohnenberger disse...

Ahahahahaahahahahahahaah! Pobre totó!

ADOREI o texto! Claro que como toda boa gorda, fiquei com mais com água na boca do macarrão ao pesto do que qualquer outra coisa. Aliás, quando li o título da postagem já comecei a babar. Mnham!

Bjs bjs!

Bruno Massao disse...

Como sempre, demais! :)

Marina disse...

adorei a versão "contos da nat mode [ON]"!

feliz ano novo! :)

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