terça-feira, 30 de novembro de 2010

Nem peixe

Há um ano, tomei uma decisão muito importante na minha vida. Há um ano, decidi que não comeria mais carne.

Era uma coisa que eu queria fazer já havia bem mais tempo. Em 2008, como promessa de fim de ano, não comi carne vermelha porque pensei que seria mais fácil parar com os outros tipos depois. No fim das contas, isso não deu certo e voltei com minha vida normal, mas continuava sentindo que precisava mudar alguma coisa.

E foi assim, sem muito alarde, sem promessa e sem dar atenção para os comentários alheios sobre essa minha nova opção que, no dia 30 de novembro de 2009, vi que a carne não era tão necessária quanto me ensinaram minha vida inteira.

Decidi parar de comer carne por compaixão mesmo. Eu sou fanática por animais; qual é o sentido em matá-los para comer? Tá, tá, tá, lei do mais forte, muitos alegariam. Mas era um negócio mais pessoal: eu não me sentia bem comendo carne. Para mim, tinha perdido o sentido. E essa foi a maneira que encontrei para equilibrar alguma coisa dentro de mim. E está funcionando.

Soy UN LINDO!
No fim das contas, foi muito mais fácil do que eu imaginei, até porque já estava acostumada à dieta. Durante uns bons seis anos, meu irmão foi vegetariano e o volume reduzido de carne – e, consequentemente, um bem maior de soja, vegetais e legumes – nunca me incomodou. Sempre gostei de alimentos verdes, vermelhos, roxos, laranjas e de todas as cores e dos sabores mais diferentes. Sim, sou o sonho de todas as mães e a nora que sua mãe pediu a Deus (autoad mode: on).

Com o passar do tempo, comecei a pesquisar sobre vegetarianismo, para saber quais seriam as substituições que eu precisava fazer. Afinal, a carne tem nutrientes essenciais para o organismo, mas isso não quer dizer que não consigo encontrá-los em outros alimentos. Procurei bastante, falei com alguns profissionais e decidi que o ovolactovegetarianismo era o que eu queria mesmo. E então essa pesquisa se tornou algo bem mais profundo. O que antes era apenas compaixão virou uma questão de saúde – e princípios.

Mas não vou falar deles aqui porque não quero perder meus leitores lindos o papel de ecochata não combina comigo. Claro que se você quiser saber alguma coisa sobre vegetarianismo eu vou responder com o maior prazer, mas acho ridículo ficar forçando os outros a fazer algo que não querem.

Assim como em religião, música e futebol, não discuto a preferência dos outros e nem espero que eles pensem como eu. E sei como é triste e sofrido fazer algo que não agrada só por insistência dos outros. Para mim, tudo nessa vida precisa fluir naturalmente. Nada que você faz obrigado – frequentar lugares, trabalhos, faculdades – vai dar certo, isso é um fato.

Às vezes, o maior incômodo de ser vegetariana é a maneira como as pessoas te veem. Eu coloquei na minha descrição do perfil ali no blog, mas evito tocar nesse assunto em outras situações porque às vezes rolam uns ataques de pessoas onívoras, e não as culpo. Muitas vezes, a única coisa que sabem sobre isso são as acusações desnecessárias de vegans radicais (“Você sabe o quanto um porco sofreu para você comer esse bacon?” e coisas do gênero). E, sinceramente, se eu estivesse no lugar delas e fosse abordada dessa maneira, ficaria de saco cheio e dificilmente teria algum interesse no assunto.

Também tem o outro lado: as pessoas que se sentem culpadas. Não sei é genuíno ou se é para se sentirem incluídas, mas sempre soa muito... sei lá, como uma explicação que eu não pedi, uma cobrança que eu não fiz. Já rolaram muitos comentários do tipo “ah, mas eu quase não como carne vermelha” ou “só como carne duas vezes por semana”. Eu nunca entendo o que as pessoas esperam que eu diga ao ouvir isso. A minha vontade é só falar “meu querido, seja feliz. Se você está feliz comendo carne, eu estou feliz por você. Se você realmente quer tentar algo diferente, espero poder te ajudar. Mas, por favor, pare com o teatrinho porque eu gosto de gente autêntica. Não falei que sou vegetariana porque quero mudar sua cabeça, foi só porque surgiu o assunto”.

Apesar de tudo, estou adorando essa minha nova experiência. A cada dia eu aprendo algo diferente. Estou mais animada, mais feliz e com a consciência limpa. Me sinto muito melhor comigo mesma, e essa era o objetivo original – e não pregar meu novo estilo de vida para o maior número de pessoas possível.

Conheci lugares e pessoas novas, além das que já conhecia, mas todas me respeitam, e o recíproco não poderia ser mais verdadeiro. Acho ótimo ter achado algo que me interesse e me faça buscar novidades: receitas, temperos, sensações, sentimentos. É muito bom ter uma mãe que, mesmo ainda comendo carne, mergulhou nessa comigo de cabeça. Eu gosto de saber que influenciei alguém de maneira positiva, sendo exceção à regra dos vegetarianos xiitas.

E, por mais estranho que pareça, até aquilo que me irritou no começo já está me fazendo dar risada. A postura que eu resolvi tomar foi a de encarar tudo isso de braços abertos e um sorriso na cara, o que está me fazendo muito melhor. Afinal, a conversa abaixo está cada vez mais presente na minha vida.

- Moço, tem algum sem carne?
- Sim, tem esse que é de frango e esse outro de atum.
- Ah, mas é que eu não como carne nenhuma, moço.
- Mas nem peixe?
- Não, moço... Nem peixe.


Ainda bem que sempre tem os salgados de queijo para salvar a pátria.

Para comemorar, vou abrir a lata de palmito 
que estou tentando desde ontem

5 comentários:

Charlie disse...

Caramba... Um ano desde a primeira vez em que olhei para o seu prato e disse "Arrrgh!!! Só salada?"...

Cami Pires disse...

Vou fazer um post parecido, só que no meu caso vai ser adaptado com um "nem tomate". Ou talvez "nem alface"... Me orgulho não só por vc ser vegetariana, mas adepta do "seja feliz"...

Tyler Bazz disse...

Por um mundo COM vegetarianos, afinal, cada um come o que quer.


Mas ah, os vegetarianos-conversores.
MORRÃO!

:D

Anônimo disse...

É Maximo, pelos comentários acima, o pessoal não aceita bem este lance de não comer carne. Mas não se preocupe. A vida é assim! As pessoas reagem da mesma forma em relação a quem não ingere bebidas alcólicas (não por religião, mas sim por escolha) ou não fuma, etc!

Mas já reparou como as propagandas de cerveja são feitas? Na minha opinião arecem que são feitas para debilóides. Enfim .. me perdi do assunto .. mas parabéns pela sua escolha. Não desista da sua filosofia e não se importe com os outros!

Giu disse...

Cara, eu fico feliz por vc ter noção de que num dá pra ficar "pregando" pras pessoas, que cada um segue o caminho que quer, como a gente já conversou no Twitter! =)

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...