sábado, 27 de novembro de 2010

I’ve got a feeling

Antes de começar, preciso destacar algumas coisas importantes, assim você não perderá seu tempo lendo algo que pode não fazer o menor sentido. 

Esse texto é sobre ser fã de música. Não precisa ser fã de Beatles ou do Paul McCartney, mas precisa saber na pele o que é ser fã. Só isso. Se, por quaisquer motivos, você não está familiarizado com essa relação de amor e ódio, idolatria e amizade, admiração e até obsessão, você está no lugar errado. Se as músicas são indiferentes e não te fazem sentir um arrepio inexplicável nos pelos da nuca, vou pedir que você pare por aqui e o convido para aparecer na próxima. Farei questão de escrever algo que te diga alguma coisa, porque não é o caso desse texto. E ele é muito especial para mim.

Agora, se você ama tanto um artista ao ponto de incluí-lo – junto com suas obras, claro – nos momentos mais especiais da sua vida; de considerá-lo não apenas um músico genial, mas sim um velho amigo, mesmo que o único contato que vocês tenham é quando seu iPod liga e as canções ressoam em seus fones de ouvido; ao ponto de perceber que o que você fala já foi dito por ele em seus álbuns, e substituir todas suas palavras pelas dele não te incomodaria – mais que isso, seria uma honra; se, mesmo nunca estando com ele, você entende o que cada uma daquelas letras e melodias querem dizer e, ainda mais importante, se esforça para isso como se não houvesse mais nada para lutar nessa vida: meu amigo, você está no lugar certo. E você sabe o que eu sinto. E eu espero que você queira continuar por aqui.

Explicado o essencial, vamos ao assunto: show do Paul McCartney. Não quero falar do setlist, que seria perfeito até se ele tocasse Molejo; nem da estrutura sensacional; nem da banda altamente competente; nem da explosão de fogos, que é de encher os olhos. Você pode ver todas essas coisas em qualquer site, qualquer um mesmo. Quero tentar descrever o que eu passei naquelas três horas, em que minha vida foi totalmente perfeita. E também me desculpar com vocês, leitores.

Demorei cinco dias para conseguir escrever sobre esse show. Cinco dias. Mas não foi porque deu preguiça ou porque estava muito atarefada, mas sim porque não pude. Se você trabalha com redação, com certeza sabe o que passei: abrir uma página do Word e ficar horas olhando, esperando que as palavras se formem sozinhas, porque você não vai conseguir. Me senti exatamente assim. Não por bloqueio criativo, mas é porque não dá para explicar o inexplicável.

Após ver Paul McCartney ao vivo, percebi que não estou apta para ser blogueira, escritora, chamem como quiser. Não vou fechar o Caleidoscópio, mas podem culpar esse senhor pela baixa qualidade dos meus próximos textos. Naquela noite, Sir Paul levou consigo o pouco que me restava de racionalidade, timing e capacidade de digerir informações rapidamente, características que considero bem importantes para quem tem um blog. Afinal, daqui a pouco vai fazer uma semana que ele saiu do Brasil, seguiu sua turnê e eu continuo aqui, incapaz de falar qualquer coisa sobre o assunto. E, como tudo nesse mundo rápido e cada vez mais descartável, ninguém mais se lembra de sua rápida passagem por São Paulo, certo? Sim, mas exclua dessas estatísticas eu e outras 63.999 pessoas que acompanharam esse momento.

Não dá para escrever nada enquanto as lembranças te fizerem chorar como uma criança. E, falando em chorar, nunca entendi esse negócio que as pessoas têm de associar lágrimas à tristeza. Quem me viu na segunda-feira deve ter pensado que eu estava passando por um problema muito sério em casa, já que não conseguia parar de chorar. O que ninguém conseguia entender era que aquilo era pura felicidade, nostalgia, incredulidade. Se ouvir uma música que tocou lá, ver um vídeo ou ler um texto sobre o assunto estão fazendo minha garganta dar nós e meus olhos marejarem até agora, imaginem escrever sobre. Não foi só um sentimento que me dominou durante aquele show, foram vários, muitos deles que estou tentando entender até agora.

Foi por isso que, lá no começo, eu disse que esse texto é só para fãs, porque só eles vão entender toda essa confusão de parágrafos desconexos. Só eles sabem que é normal chorar até soluçar ao ver um ídolo ao vivo, principalmente quando você nunca esperava que esse momento fosse acontecer. Só quem é fã sabe que não dá para controlar as lágrimas, a explosão de emoções que é ver na sua frente um ídolo que não apenas construiu sua formação musical, mas ajudou a moldar seu caráter. Quem é fã sabe que não adianta: por mais que você tente, esse efeito anestésico não passa.

E, naquele show, eu me emocionei como nunca pensei ser possível. Quando as luzes do palco se apagaram, foi como se eu tivesse sido arrebatada daquele estádio, deixando meu corpo junto com as lágrimas. Mas, além de chorar, eu ri, pulei, dancei e gritei o mais alto possível para que o Paul pudesse me ouvir. Eu queria que ele soubesse que eu estava ali. Queria que ele soubesse o quão feliz eu estava por poder participar de um coro de “Hey, Jude” e que, mesmo que eu saísse daquele estádio com as mãos em carne viva, eu não pararia de aplaudir.

Depois de ver Paul McCartney ao vivo, você conclui que qualquer outra banda pode se aposentar e você é obrigado a encaixotar tudo que um dia ousou chamar de rock’n’roll. Eu, 48 anos mais nova que o Paul, não tenho 2% da vitalidade dele. Isso sem falar na simpatia honesta, no esforço para falar na nossa língua, na facilidade para dominar 64 mil pessoas, na humildade que qualquer outro na posição dele não teria. Mas ele não é assim, nunca poderia ser. Ele é um gentleman, um Sir, um Deus e, para polemizar, até mais que isso: ele é um Beatle.

E não me venha com essa ladainha de ex-Beatle. Ele é e sempre será um Beatle. Ele é um dos poucos que tem a honra de falar que escreveu uma música para “meu amigo John” e dedicar outra – uma das mais lindas da história, diga-se de passagem – para “meu amigo George”. Atualmente, só ele e um outro estão vivos para dizer que fizeram parte da maior banda de todos os tempos. A MAIOR BANDA DE TODOS OS TEMPOS. Não é pouca coisa carregar esse título. E você o respeita mais ainda ao perceber que ele não o tem à toa.

Paul McCartney é o único que permitiu que eu realizasse um sonho que estava quase acabado, e, como em um cartaz que vi por lá, “the dream is not over, now it’s real”. Paul McCartney é o único que permite dizer que "eu vi um Beatle" e saber que eu vou dizer isso para meus filhos e netos. E só dizer mesmo, porque ainda estou tentando compreender o peso dessa frase. Coisa de fã.

If you want me to, I will. Thank you.

5 comentários:

Otavio Oliveira disse...

É cada vez mais difícil ler um texto sobre esse show - e, sobretudo, sobre esses caras - sem ter a vista embaçada. Concordo com tudo. E digo que o novo objetivo da minha vida - embora eu ainda vá em muitos shows, espero - é só vê-lo de novo.

Má-Má disse...

Ainda que vc tenha essa percepção de que faltam palavras, fiquei arrepiada lendo o texto! que demais!! que puta sentimento! fico feliz de poder ler sobre ele aqui...:)

Charlie disse...

Clap,Clap,Clap,Clap,Clap,Clap,Clap,Clap,Clap,Clap,Clap,Clap,Clap,Clap... Bravo!!!

Anônimo disse...

Não se preocupe Máximo. Sei que muitos não, mas eu consigo entender este sentimento. Seu texto sobre o show não poderia ser melhor. Por falar nisso você está em uma sequência heim?! "Tempo", "I´ve got a feeling" e "Magia Natalina? Nunca vimos" foram muito bons. Estou no aguardo de todos os posts de dezembro! :)

Natalia Máximo disse...

Obrigada, Anônimo! Daqui a pouco entro de férias e vai ter uma enxurrada de posts - assim espero.

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