domingo, 31 de outubro de 2010

Starts With Trollagem

Vou aproveitar para ressuscitar um tema que quase mais ninguém se lembra – porque meu timing é muito bom para o Caleidoscópio, né. O SWU Festival foi a maior trollagem do ano. Não apenas pela organização – péssima, vergonhosa, indiscutivelmente ruim -, mas pelo conjunto da obra da experiência que passei. Até sair de São Paulo com destino a tal da Fazenda Maeda foi uma aventura para mim.

Para quem não sabe o que é trollagem, é importante esclarecer o termo, muito utilizado nas internê. Troll é a pessoa que semeia a discórdia, que gera o conflito, que causa briga, que destrói a uniformidade de pensamento e traz a fúria . No SWU, a trollagem veio até mim de várias formas e vou tentar listar todas que rolaram nos cinco dias que estive na cidade onde tudo é grande – isso é, se eu conseguir me lembrar de tudo.

1. A trollagem da ida

Na sexta-feira, saí do trabalho às 18h30. Estava tranquila porque meu ônibus só partia às 21h30. Mas o que me esqueci de considerar foram alguns fatores essenciais, tipo morar em São Paulo e sair para viajar em uma noite pré-feriadão prolongado. É, sou uma besta mesmo. Resultado: cheguei em casa às 20h35 depois de andar cinquenta minutos – da avenida Sumaré, perto da Henrique Schaumann até a estação Barra Funda – por culpa do trânsito que, ao contrário de mim, não andava meio milímetro, ligando para o meu pai a cada cinco minutos falando para ele comprar uma pizza porque eu estava verde de fome (um beijo para você que come um miojo durante todo o dia).

Chegando em casa, tomei um banho voando, acabei de arrumar a mala e engoli dois pedaços de pizza. Enquanto isso, meu pai me dava mais um daqueles sermões típicos por deixar tudo para a última hora, comer errado... E eu me desesperando, porque já estava quase na hora de ir para a rodoviária, a cidade estava congestionadíssima E EU AINDA ESTAVA EM CASA. No fim das contas, consegui chegar no horário, mas, como alguma coisa sempre dá errado, não deu tempo de sacar dinheiro. Sorte que aceitavam cartão por lá.

2. A trollagem da organização

Essa trollada é tão grande que eu preciso dividir em tópicos. Prepare yourself.

2.1. Preços

Preços abusivos, para tudo. Só de ingressos, gastei 500 realidades – é, comprei pista VIP para o último dia, mas valeu a pena -, fora alimentação, camping e tudo o mais, como tinha listado em outro post. Minha sorte foi ter conseguido levar comida para a barraca, porque quando dava na telha, eu voltava para o camping e comia alguma coisa. No almoço, comia feito um pedreiro para garantir o resto do dia. Quase não bebi, visto que uma latinha de HEINEKEN estava apenas SEIS PILAS na arena de shows. Tôdiboua, hein.

2.2. Fila

Ô mania que brasileiro tem de fila, viu. Tinha fila até para respirar no SWU. Quando cheguei, na noite de sexta às 23h, demorei modestas cinco horas e meia para conseguir entrar no camping. Cinco horas no frio, no meio da terra e em um lugar muito do mal sinalizado e escuro. Quando finalmente consegui passar pela triagem, tive que entrar em outra fila, a do bondinho para chegar até a área de camping. Fora a fila do banho, para comer, para ir ao banheiro, para beber... 

2.3. Camping

Quando penso em algo bem distribuído, eu penso no camping do SWU. Afinal, trinta chuveiros funcionando oito horas por dia para três mil pessoas e cinco tomadas, vagabundamente chamadas de “pontos de energia”, é a epítome da boa distribuição. Façam as contas.

2.4. Lineup

Se vai organizar um festival desse porte e não conhece seu público, é melhor ficar na miúda. Sério, que tipo de pessoa em sã consciência coloca Los Hermanos para abrir para Rage Against The Machine e espera que os fãs da segunda banda, ensandecidos com a vinda dos caras pela primeira vez para o País, não vaiem os barbudos? Eles poderiam colocar Deus para abrir o show que todo mundo ia achar uma bosta do mesmo jeito. Colocar Yo La Tengo no mesmo dia de Linkin Park? Calma aí, LINKIN PARK NO LINEUP???

3. A trollagem climática

Confiei no Climatempo e tomei no cu. Como em todos os dias a mínima prevista era 20ºC, levei vários shorts, vestidos e blusinhas para piriguetar abusar do calor. Aí que a mínima no segundo dia foi 7ºC e eu tive que me virar para usar as mesmas duas blusas de frio finíssimas nos cinco dias que estive em Itu – e, claro, só uma calça comprida.

Aliás, o problema nem era tanto o frio, mas o vento, que era de rasgar até as emoções. O pior de todo o vento era a terra que ele levantava. Não tinha banho que desse conta do estrago. Quando vi um monte de gente com capas plásticas de chuva, comecei a sentir a maior inveja, porque o plástico não deixa o vento passar, né. Ia ser perfeito para as minhas condições de pouca roupa.

O que me salvou dessa roubada foi uma mantinha bem da fajuta que uns meninos que conheci no camping me emprestaram. Imagine a cena: eu, no meio de uma multidão, enrolada em uma manta cinza, sonhando com uma dose de vodka para dar uma esquentada no corpo – é, lá só vendia cerveja. Pique mendigo. WAY TO GO, GIRL.

4. A trollagem do camping

Claro que o camping não seria de todo ruim por si só. Eu tinha que dar meu jeitinho de deixar toda a experiência de acampar pela primeira vez ainda mais deliciosa. Levei uma barraca tão pequena, mas tão pequena que mal dava para mim e para minha amiga, o que dirá para nossas malas. Tivemos que deixá-las na barraca de uns meninos muito do gente boa que conhecemos por lá. Mas, se o problema fosse só ser zoada pelos donos de barracas gigantescas com doze quartos e quarenta e sete andares que falavam que a minha era do tamanho daquelas gaiolinhas de levar animal de estimação no avião (o que não era lá uma mentira), estaria de bom tamanho. 

O negócio é que, como só levei saco de dormir, dormi todas as noites praticamente no chão. O mais engraçado era que a cada noite aparecia um pedregulho embaixo de mim, atrapalhando ainda mais minha acomodação. Como se isso não fosse o bastante, a barraca que eu levei não tinha uma cobertura impermeável. Então, quando dava três da matina e começava a cair sereno, eu acordava toda assustada e me perguntando por que diabos a cabana estava toda molhada.

Até eu sair dos meus devaneios psicodélicos de sonhos, já era hora de acordar (leia-se: seis da manhã com o sol ardendo em cima da porra da barraca e deixando lá dentro parecido com uma sauna. Depois de dormir só três horas, quase morrendo de hipotermia, claro).

5. Autotrollagem

Sim, eu TINHA que me trollar de todas as maneiras possíveis. Isso era essencial para fazer dessa uma viagem tipicamente minha. Logo no sábado, antes de ir para a arena de shows, passei protetor solar até na unha do dedão, porque passar três dias ardendo não ia ser nada divertido. Claro que isso não seria suficiente. Resultado: belas marconas de óculos de sol que estão vivinhas até agora e um nariz vermelho Rudolph-style ardendo por uma semana.

Além disso, me dei mal com as pilhas que comprei. Eu, alucinada por fotos, levei logo umas 16 pilhas para minha máquina, pensando que dariam para os três dias tranquilamente. Mas serviu para descobrir que a Rayovac é uma bosta e seus produtos não fazem nem cócegas na minha câmera, e olha que ela está bem velhinha. Voltei de lá com, sei lá, vinte fotos. Se você me conhece, sabe que isso não é normal.

E não acaba aí: no domingo de manhã, não achava de jeito nenhum a chave do cadeado da minha mala. Desesperei e fui procurar em todos os lugares possíveis, mas nada. Quando pedi para um bombeiro, aquele profissional incrível que salva gatinhos de árvores e acaba com incêndios impossíveis, executar a simples tarefa de arrombar o cadeado, ele pegou uma chave de fenda, enfiou no buraco da alça do cadeado, pegou um martelo e... POW! O cadeado voou para longe. 

Só que, para o meu azar, o zíper da mala também. Ou seja, mais três dias de mala aberta, com todos meus itens pessoais, na barraca dos outros. VALEU PELO SERVICINHO, BOMBEIRO! O problema só foi resolvido na noite da segunda-feira, quando o Waniguer e a Camis ESSES LINDOS trouxeram um rolo de silver tape – que era preta, vai entender – que eu usaria para fechar a mala no dia da viagem de volta. Ainda bem que a ideia funcionou direitinho.

6. A trollagem do green washing

Sustentabilidade? SÉRIO, TOTALCOM? Porque, em cinco dias, não vi quase nada disso acontecendo. A ideia do banho de sete minutos foi muito boa, realmente. Sete minutos é tempo para caramba para um banho, tanto que, nos cinco banhos que tomei lá na Fazenda Maeda, lavei o cabelo e me ensaboei duas vezes, e ainda sobrou tempo. Só que, nesse tempo de sobra, não dava para desligar o chuveiro.

Funcionava assim: duas mocinhas ficavam dentro da tenda dos chuveiros, uma recebendo os vale-banhos e direcionando as meninas para as cabines vazias e a outra ficava controlando um quadro de botões para ligar cada um dos chuveiros. Mas quem disse que tinha botão para desligar? Se você tomasse um banho de quatro minutos e pedisse para desligar o chuveiro, não tinha como fazer nada. Logo, mais três minutos de água caindo. Ou seja, desperdício. Isso sem nem falar da quantidade absurda de copos e pratos plásticos usados na arena de shows, dos poucos cestos de lixo distribuídos pelo local e refletores acesos em horários desnecessários lá no camping. Sustentabilidade? Tem que ver isso aí, hein.

***

Acho que até consegui resumir bem qual que foi a do SWU. Não falei dos problemas de estacionamento, banheiro e essas coisas porque eu quase não passei por eles. Como eu estava no camping e podia ir e voltar a qualquer hora, compensava muito mais ir até lá e usar o banheiro próprio da estrutura da fazenda, que era menos sujo que os químicos e comprar minha cervejinha por lá, que era dois reais mais barata. Como não fui de carro, não tive nada do que reclamar do ônibus que fazia o caminho rodoviária-fazenda Maeda. Também acabei gastando muito menos do que eu pensava porque deixaram levar comida e água para o camping, fora que pegar filas gigantescas para comer uma pizza minúscula, crua e cara dava um desânimo animal.

Se eu tivesse que dizer qual das trollagens acima foi a pior, teria que ser a autotrollagem. Não pelos fatos que eu apresentei aí em cima, mas por não ter voltado com o sentimento de fúria contra a máquina organização, típica de todos os eventos que eu vou desde que entrei na faculdade de Relações Públicas e passei a analisar tudo de maneira muito mais crítica. Assim que anunciaram o SWU, eu sabia que tudo ia ser uma merda. Realmente, toda a organização foi um lixo, coisa de dar vontade de chorar lágrimas de sangue. Pensei que, depois de tudo, só teria xingamentos sobre o evento.

A caixa de sapato laranja é minha barraca. E o clima no camping?

No fim das contas, saí de lá com um sentimento de saudade. Não da organização, cruzes! Mas pelo fato de ter sido péssimo não acordar na terça-feira com passagem de som, imaginando como seria foda ouvir tudo aquilo mais tarde. Foi pior ainda saber que ia ser foda ver novamente toda aquela galera gente finíssima, do Brasil inteiro, que conheci no camping. Mais chato ainda foi ter que sair daquele clima de alegria legalize – reflexo da excelente triagem, aquela que eu esperei quase seis horas para passar – que tomava conta de todo o camping, com direito a uma banda super profissional formada ali na hora, que tocava de tudo e que estava muito melhor que o lineup do segundo dia inteiro. Teve um dia que eles até apareceram com um violino!

Não, o clima nem tava legal.

Vale lembrar que, se não fosse a atmosfera tão boa do camping, esse festival não teria valido a pena. O pessoal que estava lá foi para curtir, aproveitar e passar perrengue mesmo. E tenho certeza que eles pensaram no SWU do mesmo jeito que eu em algum momento. Na verdade, até sugiro um: a chegada na rodoviária de Itu no dia das crianças, quando eu fui recebida por um carro tocando pagodão da pior categoria no alto-falante. Foi muito chocante perceber que os três dias de música boa e com ouvintes dessa mesma música foram, na verdade, uma realidade paralela. E o pior de tudo: sem nem um ritualzinho ou preparação para essa tristeza! Onde estão as bandas? Cadê os fãs? SOCORRO DELS!!!!!

E, quer saber? Se tivesse que escolher, eu faria tudo de novo, da mesma forma, com as mesmas pessoas.

Ou melhor, não confiaria no Climatempo. E levaria uma cobertura para a barraca, que, definitivamente, seria maior.

2 comentários:

Rzamana disse...

Só posso dizer que eu to com meia inveja...

Pq 'meia inveja'? Simples, passei esses 4 dias (9-12) com a minha filha, e ela vale tudo pra mim.

Mas enfim, fiquei sabendo de muita história parecida com a sua e te digo que ainda assim eu to com muita vontade de ir no SWU 2011, pois é, fiquei sabendo que vai ter.

Ri horrores do seu texto, a autotrollagem principalmente, eu teria me preparado mais para o camping (5 anos acampando preparam a pessoa), mas o que vale mesmo é a experiência.

Beijos e sucesso

Giu disse...

Tava louca pra ouvir um relato insider sobre o fsetival e confirmar que as críticas todas que li na internet de fato eram válidas. Mas né, acho muita inocência do povo também acreditar que seria de fato sustentável o festival. Greenwashing define!

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