quarta-feira, 29 de setembro de 2010

Tudo pelos ares

A primeira vez a gente nunca esquece. Você fica nervoso, completamente perdido, sem saber o que fazer. Espera que dominem a situação, porque, se depender de você, vai ser um caos. Não sabe se é melhor fechar ou abrir os olhos, com luz ou sem luz. Suas mãos começam a suar, seu coração acelera e, mesmo assim, você continua sem saber o que fazer. Nesse momento, não tem como saber se você está fazendo certo ou errado.

Mas não estou falando de sexo, pervertido leitor. A pauta aqui é a minha primeira viagem de avião, e me senti exatamente como o descrito no primeiro parágrafo.

Ontem minha chefe veio me avisar que eu precisaria ficar dois dias no Rio de Janeiro para acompanhar um evento de um dos clientes da agência, pois não havia ninguém que poderia ir. Fui pega de surpresa, mas, de qualquer jeito, não poderia deixar o pessoal na mão. Sendo assim, aceitei o desafio – primeira viagem a trabalho, sozinha! – e, às cinco da manhã, já estava no aeroporto.

Só tem um problema. Eu nunca andei de avião e sempre tive um medo irracional disso. Digo que é irracional porque, por exemplo, sempre tive vontade de pular de para-quedas, e, para fazer isso, preciso saltar de um avião. Então, onde está o bom senso numa coisa dessas? Fora que sempre tive uma ideia muito romantizada sobre minha primeira viagem de avião. Seria algo como eu, uma mochila e muitos sonhos em direção à Índia, numa viagem cheia de paradas para conhecer lugares místicos e inesquecíveis. Tá, não era exatamente isso que eu tinha em mente, mas, sem dúvida alguma, nunca quis que minha primeira vez fosse uma ponte aérea feita às pressas.

Voltando ao terror à história: lá estava eu em Congonhas, bagagem na mão e prestes a embarcar. Antes disso, segui o conselho da minha mãe e fui comprar um suquinho de maracujá para entrar no avião toda trabalhada na serenidade. Como sempre, a cafeteria do aeroporto só tinha suco de laranja. Mentalizei “é maracujina, é maracujina”, mandei o suco para dentro e fui para a sala de embarque.

É impressionante como o medo do desconhecido e a inexperiência em algumas situações fazem a gente parecer muito mais babaca. Passando no detector de metais, tirei chave, celular e carteira da bolsa (porta giratória de banco mode: on)... Para ter que colocar a bolsa na esteira também. Tenho certeza que a galera que estava atrás de mim pensou “pelo amor de Deus, coloquem essa menina num ônibus, vai”, enquanto eu parava a fila para colocar tudo de volta em seu lugar.

Enquanto eu esperava a abertura do portão de embarque, eu observava o movimento na pista. Avião pousando, aterrissando, que bicho enorme, pousando, eu não vou subir nessa porra, aterrissando, o piloto não sabe o que está fazendo, pousando, vou ligar para o meu pai, preciso me acalmar. E realmente funcionou – até o momento de entrar no avião.

Já entrei causando. Fui para minha fileira, me sentei, pus o cinto (bem apertado, diga-se de passagem), comecei a ler para tentar me distrair – nessa hora, só lembrava do Lucas falando como a decolagem é horrível e o pouso pior ainda. Senti meu coração acelerar, as mãos suarem frio. Fechei os olhos e comecei a orar. Afinal, só Deus nessas situações mesmo.

- (No sussurro divino) Deus, me acalma, por fa...
- Senhora, o seu assento é o 25F?
- Hããã...
(cara de “este programa não está sendo executado corretamente”) Não, não, é o 25A...O homem só aponta para a fileira ao lado com uma expressão bem blasé.
- Ah, desculpa senhor
(para o dono do assento)... Desculpa, senhor (para o que estava sentado ao meu lado e precisou levantar para eu sair)... Desculpa, senhora (para a que estava no corredor tentando passar bem na hora que eu estava pegando minhas coisas no bagageiro).

Me acomodei – de novo – no meu novo lugar e comecei a ficar inquieta. Dessa vez, liguei para minha mãe chorando e, ao desligar, voltei à minha oração, só sendo interrompida constantemente pela voz do piloto com seu inglês fajuto. Nenhuma das frases dele me incomodou, até ele lançar a famosa “tripulação, preparar para decolagem”.

Pronto, era isso, eu não tinha saída. Comecei a pensar em quantos Boeings 737 já tinham caído, se o piloto ia perder o controle e cair na Helio Pellegrino, “e se eu cair em uma ilha tipo Lost? Só tem gente zuada nesse avião”, entre outras coisas muito saudáveis nesse momento.

Então, o avião começou a correr na pista. Eu não queria, mas não conseguia parar de olhar pela janelinha. E, de repente, a cidade foi ficando cada vez mais longe, até os prédios virarem apenas pontinhos pretos, encobertos por um incrível oceano de nuvens branquinhas perdidas na imensidão azul do céu. Foi aí que minha expressão começou a mudar.

“Caraaaaaaaaaaaaaalho, olha isso! Eu estou voando! Gente, esse piloto é muito foda, como ele conseguiu tirar um monstro desse tamanho do chão? Tenho que dar os parabéns para ele mais tarde. OLHA A LUA, CARA, E ESSE BRILHO LINDO DO SOL!!! OLHA AQUELAS ILHOTAS ALI, GENTEEEEE”. Queria gritar para todos os passageiros a minha felicidade. Foi o momento mais Double Rainbow da minha vida.

Depois de uns seis minutos de euforia e olhares enfurecidos dos passageiros da minha fileira, provavelmente para eu fechar a janelinha por causa da claridade, voltei a mim. Quando percebi, já não estava com medo. Na verdade, estava tão relaxada que fiquei até meio zonza.

Então, aproveitei para aproveitar de verdade esse momento. Afinal, era minha primeira vez. E, como toda primeira vez, foi tudo muito rápido: liguei o iPod, ouvi duas músicas e já tinha que desligar de novo, porque estava quase pousando. Tentei dar uma cochilada, mas o meu assento era o único do avião inteiro que não reclinava a poltrona. Ô, vida.

Percebi que não tinha com que me preocupar e estava até pegando gosto pela coisa, já que não é todo dia que você demora muito menos para cruzar um estado do que para ir para a redação. Sendo assim, desisti de relaxar e voltei ao efeito Double Rainbow: abri a janelinha, ignorei os outros passageiros e fiquei viajando no oceano de nuvens. Dentro de instantes, eu estaria de volta a uma das minhas cidades preferidas, e isso já era bom o bastante para minha primeira vez.

6 comentários:

Charlie disse...

Hahahahaha...Sua Linda!
É uma parada tipo: "Apertem os cintos. A Natália está vindo a bordo"... =P

Tati disse...

Eu acho tão fierce andar de avião. Mesmo apertada na classe econômica, sempre que vou viajar, vou toda linda. Sou pobre, mas limpinha e com senso fashion. Ahuehauehauheuaea.... :D

Nique Máximo disse...

Ai, eu adoro avião! O pouso e decolagem principalmente... Quando dá turbulência então.. adrenalina pura!!! Mas acho que você teve uma alegria parecida com a minha pra primeira viagem de avião: o destino! Estava indo pra João Pessoa no meu primeiro vôo (ou agora é voo?!?) e o Rio é sempre um lugar lindo pra se ir, mesmo qu rapidinho, né? Bju, Prima Linda!!!

Isadora disse...

Eu concordo com o/a Nique: eu ADORO andar de avião, é o MÁXIMO da minha radicalidade quando tem turbulência!

Lilian disse...

Nat, não foi para a Índia, mas foi para o RJ, que é sempre um lugar lindo! Além disso, mais uma boa história pra contar e compartilhar no blog! E sempre muito bem escrita! Bjs

Giu disse...

Ai, só de ler o seu post já me deu agonia. Detesto voar, DETESTO. Busão pro Rio pra todo o sempre!

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