terça-feira, 14 de setembro de 2010

Sono interrompido

Ontem tinha tudo para ser mais uma noite de sono tranquila. Afinal, quem diria o contrário? Meu sono era tão grande que, quando cheguei em casa depois da faculdade, só me dei ao trabalho de escovar os dentes e tirar o tênis. Dormi de calça jeans mesmo. Faz muito tempo que isso não acontece, não dessa forma. Desde 2008 (primeiro ano de faculdade), dormir das maneiras mais desconfortáveis possíveis – com a cara na mesa, com a cara nos livros, enquanto lia no sofá, em cima do computador – virou parte da rotina. Mas isso nunca me impediu de colocar um pijama. Ontem meu cansaço era tão grande que até esqueci.

Tudo ia bem, até que...

05h02

O celular toca. Levantei em um pulo com o susto, pensando que já estava atrasada. Quanto mais sono eu tenho, menos tempo parece que eu tenho para dormir. Olhei o despertador e vi, graças a Deus, que ainda faltavam duas horas para eu ter que realmente acordar. Ah, como é gostoso saber disso. Deduzi que tinha mexido sem querer no despertador do celular e, tomando isso para mim como verdade absoluta, fiz meu ritual diário de abrir e fechar o slide do aparelho para ele parar de tocar. Voltei à minha paz, babando de alegria pelas minhas duas horinhas de sono restantes.

05h04

O celular toca de novo. Dessa vez, nem abro os olhos: não preciso deles para abrir e fechar o slide do celular. É tão automático que nem preciso acordar. Aliás, vou acordar para quê? Eu devo estar sonhando mesmo.

05h55

Mais uma vez, o celular dá o ar da graça. Como em tudo nessa vida, um é pouco, dois é bom, três é demais. Olhei a tela do aparelho e vi o número: não é nenhum dos meus contatos. Na verdade, não é ninguém dessa cidade. Código 14 é do interior. Marília, cidade bacana. Só tenho uma amiga que mora no interior e ela não me ligaria às cinco da manhã. Atendi. “Não acho lugar para estacionar”, uma voz feminina falou do outro lado da linha. Pensei “é claro, só tem vaga para o carro da minha mãe no meu prédio. Deve ser engano”. E voltei a dormir.

06h12

Minha paciência já havia se esgotado. Não tem sono que aguenta tantas interrupções em um período tão curto de tempo. “Essa infeliz não tem amigos, é isso? Onde essa vaca arranjou meu telefone?”, era a única frase que eu conseguia formar na minha cabeça. Abri e fechei o slide, tentando voltar ao meu precioso sono.

06h35

Não sei como ainda não tinha jogado o celular longe. “Puta que pariu, essa mala ainda não percebeu que, se eu não atendi até agora, ela está ligando no número errado??? Quem vai compensar essas horas perdidas?”. Só consigo pensar em horas agora. Fechei os olhos, só queria mais 583713823637832 minutinhos com meu travesseiro.

07h07

“VOCÊ ESTÁ LIGANDO PARA O NÚMERO ERRADO”, foi a única coisa que consegui berrar para a pessoa do outro lado da linha, esperando que ela se tocasse do inconveniente causado até então. Vi o horário e não dava para escapar da verdade: já era hora de começar o dia. Coloquei o celular no silencioso. Mereço um pouco de tranquilidade pelo menos na hora de fazer minha higiene pessoal.

07h45

Saí do banho e peguei o celular, que já tinha mais duas chamadas perdidas. Fui ver o histórico de ligações e, para minha surpresa, não era só uma pessoa que estava me enchendo o saco em plena madrugada, mas sim várias: quatro números diferentes, dos códigos 14 e 43. Gente que eu não conheço. Gente que tem prazer em azucrinar a paciência alheia logo de manhã.

08h03

Já estava girando a chave na fechadura quando o telefone toca. “Era só essa que me faltava, esses infelizes descobriram o número da minha casa? Inferno, e ainda é só terça”. Atendi, seca, grossa e estúpida. Eu nem tinha falado nada ainda e já podia sentir a pessoa do outro lado da linha constrangida e, a essa altura do campeonato, esse era meu objetivo.

- Alô?
- Oi, eu poderia falar com a Márcia?
- Não tem ninguém com esse nome, mais alguma coisa?
- Aah, é o número 1234-5678?
- Sim, mas não tem nenhuma Márcia. Mais. Alguma. Coisa? (aqui, eu já queria a pessoa ajoelhada no milho e implorando perdão por ter incomodado a paz do meu lar)
- Ah, é o que aí, empresa?
- NÃO.
- Ah... ok... Descul...
- Tu, tu, tu, tu.

08h46

Quase chegando no trabalho, o celular toca de novo. Era a mala de Marília. Era hora de acertar as contas com a destruidora de sonhos – literalmente.

- Quem é?
- Oi,cadêoFulano (nome não decodificado pela raça humana)? Agentetáesperandoelebuscaragente (brasileiro é um povo que gosta de falar 4 mil palavras por segundo).
- Esse número não é dele. Você está ligando para mim desde cinco da manhã. Eu ter desligado seis vezes na sua cara não dava a entender que não era o telefone do fulano? ELE TERIA ATENDIDO!
- Ah,desculpafoiessenúmeroqueelepassoupramim,TCHAU.

Mesmo sem ter conseguido falar tudo que eu queria para ela, isso foi suficiente. Afinal, nós termos nos entendido significa que o sono de hoje não será interrompido por ligações do interior. 

Mas, só para garantir, vou desligar meu celular essa noite.

[UPDATE!]


11h18

Me ligaram DE NOVO, dessa vez entendi que eles estão atrás do Élder, o motorista. Estou aqui imaginando que essa galera veio do interior e estão esperando até agora. Elas começaram a me ligar às cinco e até agora não conseguiram sair do lugar onde estão até agora, 11h40. Na boa? Depois de interromperem tanto minha noite, estou até feliz delas estarem sem motorista! E concordo com a teoria da Hally: como elas não conseguiram achar o Cicilho depois de terem ligado para o Rob, resolveram que eu seria a sortuda da vez.

Será que uma pessoa consegue ser tão entupida ao ponto de ficar SEIS HORAS ligando para o número errado? Deus, não deixe que eu me conforme, por favor.

5 comentários:

Fabiana disse...

TAQUEUPA !
Vc tá muito boazinha, eu tinha dado esse ataque de berros logo na primeira chamada :)

Cami Pires disse...

Agora entendi tudo!!!

Hally disse...

O Cicilho (Championship Vinyl) não foi buscar as duas loucas lá no Jardim Roberto e elas acharam que o teu número seria o dele. Agora tudo está tão cristalino como a água que não jorra mais no rio Belém (uma variação do Tietê para Curitiba).

Aí, elas ficaram horas esperando, tadinhas, achando que Cicilho viria para a carona e "tudo mais o que você querê". Aí, achando que Cicilho já tinha achado uma companhia para a noite (nem que fosse o pônei que ele montava, ou alguém que achou a "montaria" dele bonita) elas resolveram azucrinar...

Tá, parei, é muita viagem pra uma pessoa só!

.a que congemina disse...

Sei nem o que eu faria no seu lugar.
Mas mandar a putaqueapariu já seria um começo. =~~

Anônimo disse...

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