segunda-feira, 6 de setembro de 2010

A dama (?) do lotação

Quem anda de ônibus com certa frequência sabe que isso não é o que pode ser chamado de rotina. A cada viagem, pessoas diferentes e que nunca se viram antes. Cada dia é uma aventura com essa turminha do barulho que vai aprontar altas confusões, cada vez mais improváveis.

Essa tarde estava fazendo um percurso para comprar meus ingressos para o SWU. Saí do Butantã, onde trabalho, com destino à Galeria do Rock, no centro da cidade. É um caminho até que curto, já que o ônibus só tem que seguir reto pela Rebouças e pela Consolação. Levando em conta que hoje é emenda de feriado, o trânsito na cidade está super tranquilo. Fui feliz e saltitante atrás do meu objetivo (bem caro, diga-se de passagem), pois nada poderia me fazer perder o foco.

Tudo ia bem na minha viagem: o sol brilhava timidamente, os motoristas estavam sorridentes com o tráfego calmo de São Paulo, Josh Homme no meu ouvido falando “I wanna make it wit chu”. Tudo estava lindo e feliz no mundo em que eu imaginava como seria ver Pixies e Queens da grade. Tudo ia muito bem para ser verdade. 

Toda essa paz durou até eu ser transportada de volta para a realidade, até eu ser cruelmente retirada de meus devaneios por uma mão abrindo a janela acima de minha cabeça, atravessando minha holografia imaginária do palco. Vi que já estava na Paulista e, como concluí que nem aquele membro corporal e nem aquele cenário faziam parte do espetáculo que acontecia na minha cabeça, olhei melhor e vi que aquele conjunto de dedos e unhas não estava sozinho: aquela mão nada delicada estava acompanhada por uma senhora e suas sacolas.

Olhando de soslaio (Deus, como eu amo essa palavra), parecia uma pessoa normal. Uma senhora morena, que devia ter uns 60 anos. Mas, prestando um pouco mais de atenção, você perceberia que alguma coisa estava errada. Ela tinha cabelos brancos longos e bagunçados, uma inquietude que não é desse mundo e, o que mais me chamou a atenção: ela estava toda vestida de vermelho. Jaqueta, calça, blusa, camiseta e sapato vermelhos. Não reparei na meia (ou na calcinha), mas tenho certeza que era vermelha. No momento, pensei que, se eu fosse a Isabella Fiorentino e esse fosse mais um capítulo do Esquadrão da Moda, eu teria a obrigação de avisá-la que, não, isso não é uma combinação adequada, a não ser que ela quisesse parecer um pimentão tamanho família.

"Esse modelito é uma atrocidade, Arlindo. Nem a Ana Maria Braga faria isso"

Foi aí que eu percebi que estava exagerando. Afinal, essa não foi a primeira e nem será a última vez que uma pessoa esquisita se senta ao meu lado no transporte coletivo em São Paulo, cidade essa que possui a maior variedade da espécie Homo sapiens estranhus para caralius da história evolutiva. Pensando nisso, tentei voltar ao meu mundinho de alegria, música e cerveja que será o feriadão de 12 de outubro. Mas foi mais difícil do que eu esperava.

A senhora de vermelho começou a gritar a respeito dos cremes para cabelo que ela carregava em suas sacolas – pelo número de embalagens que vi, acredito que posso até acusá-la de contrabando de xampus e condicionadores – e, como se isso não bastasse, ela resolveu que ali, dentro do ônibus, às 12h10 de um dia do sexo frustrado para essa que vos fala, era o melhor lugar para testá-los.

“Aaaah, não, mas esse não foi o que eu comprei, menina! (passa o creme na mão) A moça só pode ter se enganado, né? Mas tem um cheiro bom. E esse aqui? (passa o creme no cabelo) Ah, esse aqui é bom, já tinha usado, estou lembrando agora! (limpa a mão na calça)”

Pensei que a altura dos meus fones de ouvido já tinha começado a me deixar louca a ponto de ouvir coisas, mas vi que esse não era o caso, já que a mulher que estava sentada na minha frente e o motorista também encaravam a senhora de vermelho com aquela cara típica de “Jesus-esqueceram-o-portão-do-hospício-aberto”. Mesmo assim, resolvi não dar muita atenção. Uma hora ela já não teria mais cremes para testar mesmo, fora que eu já estava chegando ao meu destino. Nem preciso dizer que, a essa altura, já tinha desistido de voltar ao meu SWU imaginário e só tentava ouvir direito a música do meu iPod. Mal sabia eu que, naquele momento, eu ouviria outras canções.

De repente, a senhora de vermelho começou a cantar bem alto. Não consegui entender muito bem o que era, mas ela estava bem animada, visto o modo como se escorava em mim e dançava na cadeira. Nessa hora comecei a me perguntar se ela queria cantar comigo, cantar para mim, me cantar ou só queria um fã mesmo.  Fiquei com a última opção, sendo bem discreta, pois as intenções da artista não eram muito claras.

“Agora, uma canção de bolero. (cantarola alguma coisa que eu não conheço) Aaah, esse cantor de boato era muito bom, não se fazem mais cantores como antigamente. (canta por mais uns três minutos) Eu sou uma ótima cantora, né? Devia ter continuado nessa carreira, tudo seria tão melhor (canta de novo)”.

Enquanto eu tentava entender o que diabos ela cantava, me toquei que estava quase passando do meu ponto. Pedi licença para ela e recebi em troca uma música falando sobre pessoas que pedem licença. Tenho certeza que ela criou aquilo na hora e, naquele instante, tudo que eu queria era uma banda dentro do ônibus para fazer uma jam session com aquela mulher.

Quando desci, vi que já estava atrasada e precisava correr. Cheguei ao lugar que tanto queria e, depois de enfrentar uma filinha considerável, consegui comprar meus ingressos aqueles lindos. Na volta para o trabalho, feliz e contente com minha nova – e cara – aquisição, entrei no ônibus e, só quando era tarde demais, percebi que ele era o mais fedido de todas as frotas de ônibus em São Paulo. Não tinha mais como descer. Não tinha a senhora de vermelho cantando para mim, comigo, ou me cantando.

Nesse momento de cheirinho desagradável – para não dizer futum insuportável – cheguei até a sentir um pouco de saudades da senhorinha meio doida. Saco! Eu devia ter falado que ela era uma ótima cantora. Quem sabe assim ela não me acompanhava na viagem de volta. 

Eu ia me divertir, mesmo sem fazer a mínima ideia do que se trata o estilo musical “boato”.

8 comentários:

Ana disse...

Pô, eu curti a senhorinha. Seria legal se todo mundo do ônibus resolvesse aderir a cantoria. Imagino o ônibus descendo a Consolação, todo mundo cantando, com os braços pra fora da janela, o motorista buzinando no ritmo da música... ia ser mágico.

x Tomati x disse...

Juro que quando você citou a roupa da senhorinha, jurava que era Isabella Fiorentino, puxando alguém para participar do Esquadrão da Moda! OIQ! Mas adorei o texto e fico feliz em saber que você comprou seu tão - caro - ingresso, para o WoodStock Brasileiro! ;D rs

Juizoo em mocinha!

MassaG disse...

Hahaha! Que texto gostoso de ler! Muito bom!

Charlie disse...

Genial, Na...
Ri quando vc contou, ri de novo agora...
Só fiquei com uma dúvida: O cara do tal esquadrão da moda se chama "ArLINDO"???

Natalia Máximo disse...

Chama sim, Charlão. Mas pode chamar só de lindo porque ele perdeu o ar quando te conheceu SEU LINDO

Cami Pires disse...

Espero que sua vida continue repleta de Homo sapiens estranhus para caralius rendendo posts engraçadus para caralius!!!

Caçadores de Metas disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Peterson Quadros disse...

Fabuloso!!!! Natalia, voce é o máximo... Me deliciei com o texto... Que narrativa, me senti realmente dentro do onibus, em Sao Paulo, com aquela mulher... A tua loucura com o fone de ouvido, o "Homo sapiens estranhus para caralius"... Ri, ri e ri... Realmente um presente, obrigado...

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...