terça-feira, 22 de junho de 2010

Seu Germano – Relatos de uma mudança (parte IV)

“Germano” pode até ser um nome de origem germânica (dã), mas o Seu Germano, o senhor que estava pintando meu apartamento, era o clássico estereótipo do português da padaria, muito disso devido ao seu farto bigode e a barriguinha saliente. A capacidade ímpar de falar besteiras nada tem a ver com a sua cara – embora ele tenha uma cara de abobado, é muito do vivo, isso sim.

Minha mãe tem a peculiar habilidade – além de vender até gelo para esquimó – de conhecer gente a qualquer momento e em qualquer lugar, descobrir seus dons e, com toda a graciosidade que lhe é característica, descolar favores por precinhos módicos. Tudo isso em quarenta minutos. Não acompanhei o processo, mas tenho certeza que foi assim que ela conheceu e contratou o Seu Germano, já que eu nunca o tinha visto em toda minha vida.

Por volta das 13h do feriado de Tiradentes, estava eu voltando para casa na típica ressaca pós-balada. Cansada ao voltar de uma noite fiasco (além da balada HORRÍVEL, foi uma noite em que foi possível acontecer de tudo, inclusive ficar a manhã inteira parada no meio de uma estrada em Barueri, por conta de um carro quebrado), morrendo de fome e de vontade de tomar banho, com os olhos ardendo e os pés doendo, tudo que eu queria era uma cama fofinha para chamar de minha. Ao chegar ao hall do meu andar, só conseguia sentir um cheiro muito forte de tinta. Foi aí que eu lembrei da mensagem da minha mãe na noite anterior e fui checar no celular. Batata: “o pintor tá lá em casa vou ficar fora o dia inteiro bjs”. Foi aí que minhas esperanças de um sono tranquilo pelo resto do dia se esvaíram.

Quando abri a porta, me deparei com a figura: um senhor bigodudo de uns 60 anos, uns 15 centímetros menor que eu, sem camisa, de óculos amarrados na cordinha, ouvindo Antena 1. Cumprimentei-o, com toda a educação que minha mãe me deu, claro.

- Oi, qual o nome do senhor mesmo?
- Germano, e você?
- Eu sou a Nata... O QUE ACONTECEU COM A MINHA MESA???

Era a gota d’água para o meu perfeccionismo. A mesa da sala, com a madeira cor mogno, estava cheia de respingos brancos. Como sei que sou esquentadinha, me segurei ao continuar a conversa.

- Poxa, Seu Germano, o senhor não vai nem cobrir essa mesa direito? Olha quanto jornal tem ali!
- Aah, isso aí? É só passar águarraz depois que sai – em um tom de voz tão tranquilo que dava a impressão de que aquilo - manchar a MINHA mesa - fosse a coisa mais normal do mundo.
- Ah, mas achei que, quando minha mãe contratou o senhor, ela tinha deixado claro que era para pintar só as paredes... Bom, deixa para lá, vou dormir, qualquer coisa, o senhor me chama, mas tenta não sujar mais nada, tá?
- ...

Na noite daquele mesmo dia, fui falar com a minha mãe, dessa vez preocupada com os rodapés e os batentes das portas. Afinal, é de praxe todo pintor usar fita crepe para demarcar os espaços, certo?

- Então, eu não comprei porque ele disse que não usa...
- COMO ASSIM, MÃE? PELOAMORDEDEUS, VOCÊNÃOPODEDEIXARELEFAZERCOMASPORTASAMESMACOISAQUEFEZCOMAMESA, MANHÊ, NÃODEIXA!!!!
- PARA DE ESCÂNDALO, MENINA, VOU FALAR COM ELE AMANHÃ!
- Ok, é bom você falar mesmo. Depois, se esse velho continuar fazendo cagada, não diga que não avisei.

Minha mãe comprou a fita crepe mais por minha insistência do que qualquer outra coisa, porque o Seu Germano se recusou a usar, até quando eu, que tenho mais pulso que a minha mãe para esse tipo de coisa, insistia que ele usasse.

- Ah, olha só, menina, não precisa, tá retinho! – dizia ele, me mostrando um detalhe da pintura da janela mais curvo que a estrada de Santos.
- É, tá mesmo...

Acho que foi aí, depois de uns cinco dias de chegar em casa e ver aquele senhorzinho nada bobo realmente fazendo as coisas como ele bem entendia, que eu entreguei a Deus. Se eu não posso fazer nada, Ele que faça, não é?

E foi aí que Ele fez mesmo. Nos últimos dias da pintura, minha mãe veio me contar que tinha resolvido dar uma carona para o Seu Germano porque estava chovendo e, já que ela estava de saída, não custava nada.

- E você acredita que ele me cantou, Ná?
- (após uma explosão de risos) COMO ASSIM? O QUE VOCÊ DISSE? O QUE ELE DISSE?
- Ele veio me perguntar como eu, uma mulher tão bonita, não era casada. Aí ele começou a falar da vida dele, que é aposentado, mora com o filho e que é divorciado, tá procurando alguém para namorar...
- Porra, manhê, você só dá azar nessa vida, hein?
- *, aí eu logo cortei, porque senão não dá também!

Depois de ela me contar esse causo, não aguentava olhar para o Seu Germano sem dar risada. Então, passados uns dois dias, ele acabou seus serviços e foi embora. Mas teve duas coisas que, sem dúvidas, ele deixou marcado na história dessa mudança: na minha cabeça, a cantada marota na minha mãe; nas minhas paredes, as curvas da estrada de Santos.

* Não sei se o “” é algo tipicamente mineiro (onde minha mãe nasceu) ou se é tipicamente norístico (ela chama Nora), mas é meio que uma interjeição para “nossa”. Não dá para expressar muito bem quando escrito, mas eu tentei.

4 comentários:

Toni Barros disse...

Acho que meu tio, de BH, também fala Nû. Talvez seja algo mineiro mesmo.

Charlie disse...

E esse Germanão, hein?
Não perdeu tempo... passou logo uma cantada malandra na Dona Máxima...
Hahahahahaha...
Valeu a pena esperar... HAHAHAHAHAHA

Má-Má disse...

hahahahahahahahahahaha
meu. genial.
que abusado!!!
acho que ele fez esse trabalhinho meia-boa pra voltar pra arrumar, hein, Nat! fica esperta.

não sou mineira, mas super uso o "nû", se for do jeito que to pensando. é bem anasalado o som, né?? meio pra dentro?? hahaha

Natalia Máximo disse...

Exatamente, Má-Má, é bem pra dentro. E olha que falar anasalado é coisa de paulista... Eu, hein...

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