sábado, 1 de maio de 2010

Terreno estranho – Relatos de uma mudança (parte III)

- Filha, já pode vir para a casa nova, tá? Ia te buscar e fazer uma surpresa, mas tô muito cansada, vem de ônibus, tá? Te amo, beijos.
- Oi???

A minha reação é completamente compreensível. Afinal, acabamos nos mudando um dia antes do planejado e eu não fazia ideia de como chegar no novo apê. Então, depois de sair de uma prova completamente estressante – o professor desenhou uma caveira na lousa para ilustrar a avaliação. Imagina o nível – e ainda tive que descobrir o ônibus que tinha que pegar para chegar em casa. Deus abençoe o Google Maps.

Depois de alguns problemas no ônibus (a Inajar de Souza é idêntica em toda sua extensão, o que me fez descer no ponto errado, gente se amontoa na porta, mas que só vai descer no terminal), consegui chegar no condomínio. E foi quando me deparei com a primeira coisa estranha: a portaria.

- Boa noite, moço... Então, acabei de me mudar e... ai, não sei qual é o número do apartamento, deixa eu ligar para minha mãe, peraí... Ah, é o número tal, posso subir?
- Qual seu nome, senhora?
- Natalia... Ai, moço, estou sem chave, desculpa.
- Pode subir.

Só precisei de cinco minutos para já começar mal a vida na nova casa. Mas ainda ia piorar.

O condomínio tem oito torres e cada uma delas tem uma porta que fecha às 22h, todo dia. Eu chego da faculdade depois das 23h. Logo, estava trancada do lado de fora do prédio, com frio, fome e carregando uma mochila do tamanho de um astronauta. Segunda coisa estranha. E lá vou eu, ligar para minha mãe de novo, pedir para ela sair da cama e descer com a chave (depois pensei que ela podia ter jogado pela janela, né?), sendo que, cinco minutos depois, chegou uma vizinha e abriu a porta...

Assim que entrei no apartamento, me deparei com o terceiro problema: o tamanho. Deus, a casa está espalhada em caixas de papelão e sacos plásticos, onde vou guardar tudo isso? “NÃO TEM ESPAÇO NESSA CASA PARA ISSO, VAI TER QUE COMPRAR O APARTAMENTO DO LADO, MANHÊ! MÃE, CADÊ MINHAS COISAS, ONDE VOCÊ GUARDOU TUDO??? SOCORRO, MÃE, PRECISO DE UM GUARDA-ROUPAS!”. No começo, no meio de todo aquele caos, essas frases foram muito gritadas.

O que nos leva ao quarto problema da casa nova, o barulho. Não dos outros (quando o Curintia ganha jogos de quarta, não tem grito nenhum, ó que maravilha!), mas o que eu produzo. Imagino que os vizinhos já queiram me assassinar, porque eu ainda não me acostumei a não arrastar cadeiras, a ouvir música alta para tomar banho às duas da manhã enquanto canto no chuveiro e ver filmes no último volume. Esse negócio de “seu chão é o teto do que mora embaixo e seu teto é o chão do que mora em cima” realmente me preocupa. Na verdade, não sei como ainda não recebi mensagens anônimas no interfone, ameaçando minhas cachorras de morte se eu não parasse de subir com o carrinho de compras com as mudanças de madrugada. Desculpa, gente, ainda não me acostumei com toda essa falta de privacidade.

Ah, a privacidade também é um problema. Como ainda não tem cortina nenhuma nas janelas, andar só com as roupas íntimas pela casa é perigoso. Mas achei uma diversão nessa história de ter vários prédios ao redor. Vocês têm noção de quanta gente dá para eu observar agora? É tão legal poder viver Janela Indiscreta que nem consigo descrever! E, além de tudo, tem uma quadra de futebol atrás do prédio. Imagina quantos jogos de gente bêbada e engraçada eu vou ver de camarote!

Tirando o fato de eu ainda estar sem guarda-roupa, a localização estranha do interruptor do meu quarto, a quantidade absurda de dinheiro que estou gastando – da minha antiga casa, só trouxemos a mesa de jantar. Minha alma está parcelada na Dell Anno e na Leroy Merlin – e ter que levar as cachorras para passear todo dia, acredito que já me acostumei bem com a mudança.

Quer dizer, me acostumei até agora, porque ainda falta muito para acabar.

* Queria pedir desculpas pela demora para postar. A faculdade está consumindo todas as minhas energias, sem a menor piedade. Mas não pensem que esqueci daqui. Minha cabeça está borbulhando de ideias novas!

4 comentários:

naotavaassim disse...

É, Nat...
Você está em maus lençóis (Se é que você encontrou os lençóis, né?)...
Mas em relação ao barulho,não se preocupe...
Se você estiver exagerando os vizinhos vão reclamar (essa é uma característica própria da espécie vizinhos). Se não estiver, o seu ruído vai apenas fazer parte de uma sinfonia que, em breve, você também conseguirá decifrar com facilidade... Você vai saber quando aquele casal que acabou de se mudar está transando, quando aquele moleque sardento quebrou alguma coisa (e apanhou), quando o vizinho do lado chegou meio bêbado ... é assim mesmo...

Natalia Máximo disse...

Poxa, Charlie, obrigada! Tudo fica mais simples agora!

naotavaassim disse...

O que eu posso dizer? É um dom que eu tenho...

Ela disse...

É gata, treina o desapego e se livra de algumas coisas!

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