domingo, 4 de abril de 2010

Família sob escombros - Relatos de uma mudança (parte I)

São Paulo, 3 de abril de 2010.

13h27. Chove muito no bairro do Limão. Mas isso não é o bastante para acabar com o pique da comandante da casa, a Sra. Máximo (conhecida por mim como Mamãe).

Meu pai já estava fardado. Com seu par de Havaianas, camiseta furada e bermuda surrada, estava mais do que pronto para subir no sótão do lar e retirar sabe Deus o que se encontra lá em cima, trancafiado a sete chaves há 24 anos. Eu? Eu tinha acabado de acordar.

- Natalia, é bom você trocar de roupa AGORA e vir ajudar seu pai.

Quando minha mãe fala “Natalia”, é porque o negócio é sério. Mas eu não tinha saída. Meu irmão só viria depois das 21h. Eu estava completamente sozinha na faixa de Gaza. Jesus deu sorte de ter sido sacrificado um dia antes, porque senão estaria fazendo o milagre de andar sobre a poeira, não sobre as águas. Escovei os dentes, troquei de roupa, prendi o ladrão (a.k.a. cabelo), coloquei Led Zeppelin para tocar e fui ajudar.

E, daquele sótão, saiu de tudo que você possa imaginar. E saiu muita coisa. A casa tinha ido abaixo, eram os escombros do mundo.

Uma das minha cachorras tentando fugir do trabalho. Elas não foram poupadas.

Meus cadernos de escola, do meu irmão, da minha mãe e dos meus tios. Livros e mais livros, edições dos anos 70. Fotos. Fitas K7. Um vídeo cassete. Documentos. Revistinhas da Turma da Mônica. O faqueiro de prata que meus pais ganharam no casamento deles, há 30 anos, e que minha mãe me daria quando eu casasse. Troféus e medalhas. E, claro, muita nostalgia, risadas e lembranças.

Joguei muita coisa fora sem nem olhar direito, como presentes de ex (o que fez com que eu me sentisse muito mais leve) e cadernos do colegial. Mas as camisetas de fim de ano, que a escola inteira assina – inclusive aquele menino do 3º colegial que eu era gamada e fiquei morrendo de vergonha, mas pedi para ele assinar  – e as agendas que toda menina faz até seus 15 anos, que nem fecham direito de tanto papel de bala/carta de namoradinho/bilhetinho das amigas, tiveram que ficar, pelo menos umas três. Ah, e é claro: ingressos de show, baquetas e setlists. Esses não dá para jogar fora.

Depois de tantas ameaças de mudar de casa, quando finalmente se concretizou, fiquei bem cansada com a trabalheira que deu revirar todas as papeladas e tranqueiras guardadas por tanto tempo. Nunca tínhamos feito uma faxina tão grande como essa. O saldo do sábado de Páscoa foi o seguinte:

12 horas gastas para tirar caixas do sótão, ver tudo que estava dentro e separar o joio do trigo;
22 sacos de lixo cheios até a boca de tanto papel;
1 catador de papel muito feliz;
1 dor insuportável na parte de trás das minhas coxas.

Depois disso tudo, fiquei pensando como tudo é efêmero. Em quanta coisa que eu considero essencial hoje, mas vou jogar no lixo daqui a cinco anos sem nem lembrar porque guardei, porque não vai ter espaço para elas na minha nova casa. E, por mais que você jogue tudo fora, você não vai esquecer, mesmo que você queira muito.

(Para quem não sabe, meus pais se separaram recentemente e meu irmão casou. Por essas e outras razões, a casa ficou muito grande para mim e para a minha mãe – mas, como vocês puderam perceber, estava bem pequena para nossas tranqueiras. Desde 1986 minha família morou nessa casa. Passei meus 19 anos aqui e, agora, vamos nos mudar para um apartamento, que é um ovo. Quem morou muito tempo em casa e se mudou para apartamento deve entender meu choque...)

Nota: A parte 2 vai ser completamente independente dessa aqui porque vai tratar da casa nova e das brigas com a minha mãe por causa da decoração. Pode acreditar, serão muitas.

Nota 2: Ninguém sabe onde está a chave do faqueiro. Tentei arrombar com um grampo, como fazem nos filmes (meu sonho de infância), mas não nasci com o dom. Comeremos com as mãos na nova casa.

Nota 3: Não, Wagner, minha mãe não é a Dona Máxima.

Nota 4: Coloquei o link do Porra, Maurício ali em cima porque tinha certeza que passaria a ver malícia nas historinhas da Turma da Mônica depois de criarem esse Tumblr, mas não vi. Mas, a violência, ah, essa eu percebi...

7 comentários:

Toni Barros disse...

Meus exercícios de desapego material começaram quando tive que me mudar 3 vezes em 4 anos. Em uma das mudanças eu sabia que o meu tempo naquele apartamento seria curto, então durante o ano que morei lá muitas coisas nem saíram das caixas.

Foi quando eu percebi como eu tinha mais coisas do que precisava, então a maior parte do conteúdo dessas caixas não veio junto na mudança seguinte...

Cami Pires disse...

Sei bem o que é esse negócio de desapego. Meu apto é menor do que meu antigo quarto!!! rs
Se precisar de ajuda, me chama!

Ela disse...

Certeza que vcs acharam a cachorrinha no sótão! Olha a carinha dela...

Natalia Máximo disse...

Valeu, Mame, super aceito dicas de decoração pro meu quarto! Tenho sonhado com isso hahahaha

Ela, a cachorrinha saiu do sótão correndo!

naotavaassim disse...

Porra velho, julgando pela foto vocês demoliram a casa quando saíram??

Bonita a cachorrinha sobre os escombros!!

Wagner disse...

=( Droga Nat!! Mas bem que ela poderia ser a Dona Máxima.. Vc conhece alguma Jaqueline?
hahaha... beijo

Natalia Máximo disse...

Nossa, a única Jacqueline que eu conheço é muito zoada e preferia nunca ter conhecido hahaha

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